segunda-feira, 20 de setembro de 2010

SE O BRASIL DESCOBRISSE O BRASIL - Capítulo I


Mini-série em 8 capítulos.



Capítulo I


Além Mar, 21 de abril de 2010 –

FLOTILHA DE DESCOBRIDORES ENCONTRA TERRA


Depois de enormes percalços em meio a um escândalo de superfaturamento, as Naus brasileiras encontraram terras no além-mar. Das 12 embarcações que partiram do porto de Santos, apenas quatro chegaram ao destino. As oito restantes se desfizeram no meio da viagem. Apesar da boa notícia, a oposição denuncia que o grande número de embarcações dissolvidas em alto mar é prova cabal de que as denúncias feitas por um ex-funcionário do estaleiro que as construiu, de que as mesmas foram fabricadas com lâminas de compensado, ao invés de madeira sólida, são procedentes. “Isso é um factóide criado pela oposição por conta da eleição”, afirmou o Ministro das Comunicações. O cientista marinho José da Silva concorda com a posição do Governo. “Nos últimos anos, temos observado um crescimento excessivo da acidez da água marinha, o que pode ter causado a dissolução das embarcações”. Apesar disso, o fato é que esta é a primeira vez na história da navegação mundial em que se registra a ocorrência do desmonte simultâneo de 8 naus, conduzindo cerca de cem pessoas cada uma, em pleno mar aberto.

Em meio à polêmica, o Presidente Lula decretou feriado nacional em comemoração à descoberta “Nunca antes na história deste país os brasileiros foram tão longe. Estamos prestes a nos tornarmos a maior nação do mundo em extensão territorial”. O Presidente aproveitou para alfinetar seus opositores: “Quando FHC comandou esse país, ele se contentava em ser grande na América Latina. Precisou um torneiro mecânico governar para que levássemos nossa cultura e nossa mensagem além-mar”.

EXPEDIÇÃO

O enviado especial deste jornal à expedição nos relata que as terras descobertas são vastas e cheias de matas verdejantes, com espécimes vegetais e animais nunca antes encontradas em lugar algum. A comissão de meio ambiente que integra a missão já baixou a primeira norma da nova terra, proibindo desmatamento. Foi determinada uma pequena área onde os colonos – cerca de 400 – desembarcarão e instalarão seu primeiro assentamento. A região descoberta está sendo chamada de Terra Negra por conta da cor escura de seu solo.

NATIVOS

Foi verificada a existência de um povo nativo na região. Segundo relato de nosso enviado, essas pessoas possuem a pele mais avermelhada e cultivam o costume de andarem completamente nuas. Ainda não foi travado nenhum contato com a população nativa, o que está programado para acontecer em dois dias, quando será celebrado um culto ecumênico – com um Padre, um Pastor e uma Mãe-de-Santo - em homenagem ao descobrimento.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sem choro nem vela


Quem presta um pouquinho de atenção na realidade política brasileira, já pode antever o discurso da nata ignara daqui um ano. Confirmado nas urnas o que as pesquisas mostram, a ladainha de sempre será ouvida: “Político é tudo igual, promete uma coisa e entrega outra”; “O PT traiu suas origens”; “Dilma não presta”; “os Deputados não prestam”; “os Senadores não prestam”, e o mesmo discurso “coitadista” de sempre.

O brasileiro acostumou-se com o papel de eterno cidadão de boa-fé que – coitadinho – é constantemente enganado, explorado, espoliado por políticos de fala mansa que “só aparecem de quatro em quatro anos para pedir voto”.

Nesta eleição, feliz ou infelizmente, o discurso vai finalmente soar como o que realmente é: Muxoxo de um povo que tem se aprofundado cada vez mais na venalidade e que desde a chamada redemocratização, insiste em brincar com o perigo.

Não soarão hipócritas os brados indignados de repórteres e jornalistas em geral, diante da imposição de censura, fechamento de órgãos de imprensa e perseguição destes profissionais? Ora, o PT vem, há oito anos anunciando ao som de trombetas qual o destino pretende dar à este setor da sociedade. Anunciou em seu IV congresso, organizou a tal CONFECOM, de onde saiu um sem número de propostas neste sentido, às incluiu no PNDH III e até mesmo no programa de governo de sua candidata à presidência. Ainda assim, a chamada mídia manteve-se inerte e cheia de dedos. Soaria muito “tucano” chamar a coisa pelo nome que ela tem: Censura. No momento em que jornalistas começarem a ir em cana por conta de seu ofício, será o primeiro caso na história do mundo em que burrice dá cadeia.

Não será patético ouvir de empresários que hoje cobrem petistas de reverências e salamaleques, a acusação de incompetência, no momento em que a conta dos gastos absurdos com a máquina pública começarem a cobrar seu preço sob a forma de quebradeira geral? Não é de hoje que economistas mundo afora advertem que o Brasil tem elevado seus gastos correntes de forma irresponsável, chocando um ovo de serpente que irá cobrar seu preço.

A auto-proclamada oposição, que de oposição não tem nada, poderá assistir de camarote – talvez com direito a duas refeições diárias e uma hora de banho de sol (como bem sabe o Sr. Penã Eclusa da Venezuela) – que a “estratégia” desenvolvida em 2005, no ápice do escândalo do mensalão, de “sangrar” Lula até as eleições, talvez não tenha sido tão brilhante. Também não poderão se dizer enganados. Se forem honestos, se recolherão à sua insignificância intelectual.

Também não poderão reclamar os militares. Seus reclamos, na realidade, já soam patéticos hoje. Em vinte e cinco anos à frente do governo, se jactam de terem construído estradas, pontes, hidroelétricas, de mandarem “prender e arrebentar”, de terem “vencido o comunismo”, etc, quando na verdade bastava um único e singelo investimento : Educação.

Ao invés disso, sob o pretexto de barrar a subversão, criaram o campo fértil sem o qual o tal “comunismo” não se cria: Ignorância. Tivessem investido no aprimoramento intelectual do povo – esse que certa elite nacional despreza como meros outorgantes das demandas nacionais – e faltaria ao PT a massa de manobra da qual se utilizam para impor suas demandas e seus candidatos. Com medo do Brizola – pobre Brizola – nos deram Lula. Agradeçamos ao Golbery.

As forças armadas têm conhecimento, desde sempre, da existência do Foro de São Paulo, de seus objetivos e da íntima ligação entre seus membros (leia-se FARCS – PT). Não moveram uma palha para fazer cessar o vilipêndio da nação brasileira, cuspindo no juramento que proclamaram ante o pendão nacional.

Quando brasileiros foram expulsos do Estado brasileiro de Roraima por conta da malfadada criação da reserva Raposa Serra do Sol, um único militar ousou se levantar contra isso: O General Augusto Heleno. Ao que se saiba, nenhuma voz se levantou em coro aos seus brados. Tal qual funcionários públicos fardados, preferiram garantir seus vencimentos e aposentadorias. Do que reclamarão daqui um ano, sem também que se sinta o cheiro nauseabundo da hipocrisia?

Então fica assim: teremos uma terrorista que se orgulha de seus feitos terroristas na presidência; como Senadores por São Paulo, uma socialite que, diante de uma calamidade como foi o “caos aéreo” sugere ao povo que “relaxe e goze” e um pagodeiro que bate em mulher; e como Deputado Federal, um palhaço assumido que faz questão de dizer que não sabe sequer o que vai fazer se eleito, além de conquistar outra vaga para um mensaleiro.

Diante deste cenário, o brasileiro está conquistando o direito de usufruir das consequências de suas escolhas nefastas, sem choro nem vela.

segunda-feira, 9 de março de 2009

As Fraquezas do Forte




A Fortaleza de Santo Amaro é considerada o conjunto arquitetônico-militar mais importante do Estado de São Paulo. Erguida em 1584 durante o reinado de Felipe II da Espanha e I de Portugal (na época, Portugal e Espanha formavam um só reino, comandado por um espanhol), foi responsável pela defesa territorial do Brasil em diversas oportunidades – a primeira, contra uma investida do corsário inglês Edward Fenton, e a última em 1893, quando seus canhões repeliram a revolta da armada – hoje jaz como amontoado de pedras, como se tivesse sido construída ontem.

É certo que em 1993 o forte, até então completamente abandonado, passou por um processo de restauração que lhe devolveu parte da imponência arquitetônica do passado, mas, como pudemos constatar no último fim de semana, isso está longe de ser o bastante.

No último sábado, recebemos em nossa casa a visita de familiares que residem no interior de São Paulo – um casal e duas crianças com 2 e 4 anos. Amantes, como nós, de pontos relacionados à história de nosso país, a idéia de visitar um forte militar construído quando o Brasil contava com apenas oitenta e quatro anos de “idade” parecia ser um programa maravilhoso. Havíamos previamente pesquisado todas as informações a respeito do forte – horário de visitação, preço e como chegar ao local. Nos dirigimos então à ponte dos práticos, na Avenida Saldanha da Gama. Lá, o primeiro sinal de abandono: contrastando com as ofertas de passeio de escuna pela orla, não havia sequer um pedaço de cartolina informando qual barco se dirigia à fortaleza.

Depois de perguntarmos a respeito para duas ou três pessoas, alguém nos informou que o percurso era feito pelos barquinhos que iam à praia do Góes. Localizamos o “tal” barquinho, pagamos a passagem de R$ 1,80 por pessoa e iniciamos o trajeto. Ao chegarmos ao local, o próprio condutor do barco nos perguntou, descrente, se iríamos mesmo ficar por ali. Nosso estranhamento à pergunta durou apenas os poucos segundos necessários para desembarcarmos e nos depararmos com um grupo de indivíduos sentados no píer fumando maconha – um deles, inclusive, não tinha mais do que oito anos de idade.

Novamente, não havia sequer um pedaço de guardanapo indicando onde era a entrada da Fortaleza. Descobrimos na base do “espírito desbravador”. Ao ultrapassarmos o pequeno portão de ferro, dois supostos funcionários sentados estavam e sentados continuaram, como se fôssemos um grupo de fantasmas de habitantes do forte.

Visitamos por conta própria a fortaleza. Admiramos a vista, fotografamos os dois canhões que ainda restam ali, as vigias, lemos os informativos históricos enquadrados na parte interna, descobrimos, sempre sozinhos, entalhes na muralha externa que, imaginamos, terem servido para alinhar os canhões de outrora, enfim, nos confraternizamos com um passado suposto, já que ninguém havia para nos informar o que era imaginação e o que fora realidade.

Após passearmos por cerca de vinte minutos, os dois indivíduos sentados, que já começávamos a suspeitar serem estátuas decorativas, deram sinal de vida e nos solicitaram, gentilmente, que assinássemos o livro de visitas. Assim fizemos e nos dirigimos ao píer para aguardar o transporte de volta.

Logo na saída fomos saudados por uma simpática ratazana, que saiu de entre as pedras e entrou correndo no forte. O Gran finalle, contudo, se deu com a aproximação de um dos indivíduos que, quando chegamos curtia despreocupado a sua cannabis e que, sentando-se ao nosso lado, diante das crianças, passou a discorrer sobre sua “interessante” escalada no mundo do crime, desde quando, aos nove anos de idade, ajudava o pai no tráfico de drogas da região, passando por sua estada na FEBEM aos quinze, e terminando com a última pena cumprida, esta por, após assaltar uma relojoaria no centro de Santos, ter pedido um cigarro a um Policial Civil. Entre os “instrutivos” episódios de vida, o indivíduo pedia dinheiro que nós, temerosos por nossa segurança, não tínhamos como negar.

Ao fim e ao cabo, percebendo que nossa aventura começava a tomar um rumo um pouco arriscado, e tendo em vista que o barco de volta não aparecia, resolvemos acenar para outro, que se dirigia à praia do Góes e que gentilmente atracou no píer, não sem nos cobrar o trajeto até a praia – onde não descemos – e outro trajeto até a ponte dos práticos.

Da visita, além da vergonha de termos submetido nossos familiares a tão desagradável experiência, restou-nos uma triste constatação:

Muito se fala atualmente de uma “crise ética” em nosso país, da falta de ideais e de amor à pátria da juventude. O que não se fala, é que o futuro se constrói aplicando-se no presente os exemplos do passado. Visitamos um ponto turístico recheado de histórias de heroísmo, idealismo, desprendimento e dedicação. Ninguém ali se dispôs a nos contar esses feitos e nem sequer em prestigiar um local com nada menos do que quatro séculos de existência. Os únicos feitos contados com orgulho, foram os de um criminoso reincidente de vinte e quatro anos.

Não se pode amar o que não se respeita e não se pode respeitar o que não se conhece.

Foto: Mônica Blandy

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Discurso de Posse do Presidente Barack Obama Traduzido.

Eu me coloco aqui hoje humildemente diante da tarefa à nossa frente, grato pela confiança com que vocês me honraram, ciente dos sacrifícios realizados pelos nossos ancestrais. Eu agradeço ao presidente Bush pelo seu serviço à nossa nação, bem como pela generosidade e cooperação que ele mostrou ao longo da transição.

Quarenta e quatro americanos agora já fizeram o juramento presidencial. As palavras foram ditas durante crescentes marés de prosperidade e as águas calmas da paz. Mas, de tempos em tempos, o juramento é realizado entre nuvens que se formam e tempestades violentas. Nesses momentos, a América seguiu à frente não somente pela habilidade ou visão dos que estavam no alto escalão, mas porque Nós o Povo permanecemos confiantes nos ideais dos nossos ancestrais e fiéis aos nossos documentos fundadores.

Assim tem sido. Assim deve ser com essa geração de americanos.

Que nós estamos em meio a uma crise é agora bem sabido. Nossa nação está em guerra, contra uma rede de longo alcance de violência e ódio. Nossa economia está bastante enfraquecida, em consequência da ganância e irresponsabilidade por parte de alguns, mas também por nosso fracasso coletivo em fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era. Casas foram perdidas; empregos cortados; negócios fechados. Nosso sistema de saúde está muito dispendioso; nossas escolas fracassam com muitos; e cada dia traz novas evidências de que as formas como usamos a energia fortalecem nossos adversários e ameaçam nosso planeta.

Esses são os indicadores da crise, assunto de dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profundo, é o enfraquecimento da confiança ao longo de nossa terra - um medo repetido de que o declínio da América é inevitável, e que a próxima geração deve diminuir suas perspectivas.

Hoje eu digo a vocês que os desafios que nós enfrentamos são reais. Eles são sérios e são muitos. Eles não serão vencidos facilmente ou em um período curto de tempo. Mas saiba disso, América: eles serão vencidos.

Nesse dia, nos reunimos porque nós escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de propósito em vez do conflito e da discórdia.

Nesse dia, nós viemos para proclamar o fim às queixas mesquinhas e falsas promessas, às recriminações e aos dogmas desgastados, que por muito tempo já têm enfraquecido nossa política.

Nós continuamos uma nação jovem, mas de acordo com as palavras da Escritura, chegou a hora de se deixar de lado as infantilidades. Chegou a hora para reafirmar nosso espírito tolerante; para escolher nossa melhor história; para prosseguir com esse precioso dom, essa nobre ideia, passada de geração a geração: a promessa dada por Deus de que todos somos iguais, todos somos livres e todos merecem uma chance de buscar sua completa medida de felicidade.

Ao reafirmar a grandiosidade de nossa nação, nós entendemos que a grandeza nunca é dada. Ela deve ser conquistada. Nossa jornada nunca foi de atalhos ou de aceitar menos. Não foi a trilha dos inseguros - daqueles que preferem o descanso ao trabalho, buscam apenas os prazeres das riquezas e da fama. Em vez disso, (nossa jornada) tem sido uma de tomadores de risco, atuantes, fazedores das coisas - alguns celebrados, mas muitos outros homens e mulheres obscuros em seu trabalho - que nos levaram pela longa e espinhosa rota rumo à prosperidade e à liberdade.

Para nós, eles empacotaram suas poucas posses e viajaram pelos oceanos em busca de uma nova vida.

Para nós, eles trabalharam duro em fábricas exploradoras e seguiram rumo a Oeste; suportaram o açoite do chicote e lavraram a terra dura.

Para nós, eles lutaram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg; Normandy e Khe Sahn.

Ao longo do tempo, esses homens e mulheres lutaram e se sacrificaram e trabalharam até suas mãos ficarem em carne viva, para que pudéssemos ter uma vida melhor. Eles viram a América maior do que a soma de suas ambições individuais; maior que todas as diferenças de nascimento ou riqueza ou facção.

Essa é a jornada que nós continuamos hoje. Nós permanecemos a mais próspera e poderosa nação da Terra. Nossos trabalhadores não são menos produtivos do que quando essa crise começou. Nossas mentes não têm menos imaginação, nossas mercadorias e serviços não são menos necessários do que eram na semana passada, no mês passado ou no ano passado. Nossa capacidade permanece a mesma. Mas nossa hora de proteger interesses estreitos e adiar decisões desagradáveis - esse tempo certamente passou. Começando hoje, nós precisamos nos levantar e começar de novo o trabalho de reconstruir a América.

Para todos os lugares que olhemos, existe trabalho a ser feito. A situação da nossa economia pede ação, ágil e rápida, e nós agiremos - não apenas para criar novos empregos, mas para lançar a fundação para o crescimento. Nós construiremos as estradas e pontes, as instalações elétricas e linhas digitais que alimentam nosso comércio e nos mantém juntos. Nós levaremos a ciência a seu lugar de merecimento e controlaremos as maravilhas da tecnologia para aumentar a qualidade do sistema de saúde e reduzir seu custo.

Nós usaremos o Sol e os ventos e o solo para abastecer nossos carros e movimentar nossas fábricas. Nós transformaremos nossas escolas, faculdades e universidades para suprir as demandas de uma nova era. Tudo isso nós podemos fazer. E tudo isso nós faremos.

Agora, existem alguns que questionam a escala das nossas ambições - que sugerem que nosso sistema não pode aguentar planos tão grandiosos. Eles têm memória curta. Porque eles se esqueceram de tudo o que nosso país fez; o que homens e mulheres livres podem conseguir quando a imaginação se junta para objetivos comuns e a necessidade para a coragem.

O que os cínicos não entendem é que o chão que eles pisam não é mais o mesmo - que as disputas políticas que nos envolveram por muito tempo não existem mais. A questão que perguntamos hoje não é se nosso governo é muito grande ou muito pequeno, mas se ele funciona - se ele ajuda as famílias a encontrarem empregos que pagam um salário decente, que tipo de seguridade eles dão, uma aposentadoria que seja digna. Onde a resposta é sim, nós queremos ir em frente. Onde a resposta é não, os programas acabarão. E aqueles de nós que manejam os dólares públicos terão que prestar contas - para gastar de maneira sábia, reformar maus hábitos, e fazer nossos negócios à luz do dia - porque apenas assim nós podemos restaurar a confiança vital entre o povo e o governo.

Também não á a questão que se apresenta a nós se o mercado é uma força para o bem ou para o mal. Seu poder de gerar riquezas e expandir a liberdade é ilimitado, mas esta crise nos fez lembrar que sem vigilância, o mercado pode sair do controle - e uma nação não pode prosperar por muito tempo quando favorece apenas os mais ricos. O sucesso da nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho do nosso Produto Interno Bruto (PIB), mas do poder da nossa prosperidade; na nossa habilidade de estendê-la a cada um, não por caridade, mas porque esse é o caminho mais seguro para o bem comum.

Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos a falsa escolha entre nossa segurança e nossos ideais. Os fundadores do país, que enfrentaram perigos que sequer imaginamos, redigiram uma carta para assegurar o primado da lei e dos direitos do homem, uma carta expandida pelo sangue de gerações. Esses ideais ainda iluminam o mundo, e nós não vamos abandoná-los por conveniência. E, então, para todos os povos e governos que estão assistindo hoje, das grandes capitais ao pequeno vilarejo onde meu pai nasceu: Saibam que a América é amiga de cada nação e de cada homem, mulher ou criança que procure um futuro de paz e dignidade, e que nós estamos prontos para liderar uma vez mais.

Lembrem-se que gerações anteriores enfrentaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com alianças robustas e convicções duradouras. Eles entenderam que nosso poder sozinho não pode nos proteger, nem nos dá o direito de fazer o que quisermos. Em vez disso, eles entenderam que nosso poder cresce com seu uso prudente; nossa segurança emana da Justiça de nossa causa, da força de nosso exemplo, da têmpera das qualidades de humildade e moderação.

Nós somos os guardiães desse legado. Guiados por esses princípios uma vez mais, podemos enfrentar novas ameaças que exigem um esforço maior - maior cooperação e compreensão entre as nações. Começaremos por sair do Iraque com responsabilidade e por criar um esforço de paz no Afeganistão. Com velhos amigos e antigos adversários vamos trabalhar incansavelmente para diminuir a ameaça nuclear, e reduzir o espectro do aquecimento global. Não vamos pedir desculpas por nosso modo de vida, nem vamos vacilar em sua defesa, e, para aqueles que procurarem avançar em seus objetivos produzindo terror e matando inocentes, diremos a eles que nosso espírito é mais forte e não pode ser quebrado; eles não poderão prevalecer e nós os derrotaremos.

Sabemos que nossa herança multicultural é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus - e ateus. Somos moldados por cada língua e cultura, de cada parte desta Terra; e por causa disso provamos o sabor mais amargo da guerra civil e da segregação e emergimos desse capítulo mais fortes e mais unidos; não podemos senão acreditar que os velhos ódios passarão um dia; que as linhas das tribos vão se dissolver rapidamente; que o mundo ficará menor, nossa humanidade comum deve revelar-se; e que a América vai desempenhar o seu papel em uma nova era de paz.

Para o mundo muçulmano, buscamos um novo caminho a seguir, baseado em interesse e respeito mútuo. Para aqueles líderes pelo mundo que buscam semear o conflito, ou culpam o Ocidente pelos males de suas sociedades: Saibam que seus povos irão julgá-los a partir do que vocês podem construir, e não destruir. Para aqueles que se agarram ao poder por meio da fraude e da corrupção, saibam que estão no lado errado da História; mas nós estenderemos a mão se vocês estiverem dispostos a cooperar.

Às pessoas das nações pobres, nós queremos trabalhar a seu lado para fazer suas fazendas florescerem e deixar os cursos de água limpa fluírem; para nutrir corpos famintos e alimentar mentes ávidas. E para aquelas nações como a nossa, que vivem em relativa riqueza, queremos dizer que não podemos mais suportar a indiferença quanto ao sofrimento daqueles que sofrem fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem nos importar com as consequências. Nós devemos acompanhar as mudanças do mundo.

À medida que entendemos o caminho que se desdobra diante de nós, recordamos com humilde gratidão aqueles bravos americanos que, a esta mesma hora, patrulham longínquos desertos e montanhas distantes. Eles têm algo a nos dizer hoje, como aqueles heróis caídos que jazem em Arlington murmuram através dos tempos. Nós os honramos não apenas porque eles são os guardiães de nossa liberdade, mas porque eles representam o espírito de servir ao país; a disposição de encontrar um significado maior que si mesmos. E ainda, neste momento - um momento que vai definir uma geração - é precisamente esse espírito que todos nós devemos viver.

Porque, por mais que o governo possa fazer e precise fazer, em última instância é da fé e da determinação do povo americano que esta nação depende. É a bondade de receber um estranho quando os diques se rompem, é o desprendimento de trabalhadores que preferem reduzir suas horas a ver um companheiro perder o emprego o que nos auxilia em nossas horas mais sombrias. É a coragem do bombeiro de subir uma escada cheia de fumaça, mas também a disposição de pais de criar uma criança o que, no fim das contas, decide o nosso destino.

Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com os quais nós os enfrentamos podem ser novos. Mas aqueles valores dos quais nosso sucesso depende - trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo - essas coisas são antigas. Essas coisas são verdadeiras. Elas têm sido a força quieta do progresso ao longo de nossa história. O que se exige, então, é uma volta a essas verdades. O que se exige de nós agora é uma nova era de responsabilidade - um reconhecimento, por parte de todo americano, de que nós temos deveres para conosco, nossa nação e o mundo; deveres que nós não aceitamos a contragosto, mas com alegria, firmes no conhecimento de que não há nada tão satisfatório para o espírito, tão definidor de nosso caráter, do que dar tudo o que podemos numa tarefa difícil.

Este é o preço e a promessa da cidadania.

Esta é a fonte de nossa confiança - o conhecimento de que Deus nos convoca a dar forma a um destino incerto.

Este é o significado de nossa liberdade e de nosso credo - por que homens e mulheres e crianças de toda raça e de toda fé podem se unir numa celebração neste magnífico Mall, e por que um homem cujo pai, menos de 60 anos atrás, poderia não ser servido num restaurante local, agora pode estar diante de vocês para fazer um juramento sagrado.

Por isso, vamos marcar esse dia com a lembrança de quem somos e quão longe viajamos. No ano do nascimento da América, no mais frio dos meses, um pequeno grupo de patriotas se encolhia em torno de fogueiras que se apagavam, às margens de um rio gelado. A capital estava abandonada. O inimigo estava avançando. A neve estava manchada de sangue. Num momento em que nossa revolução estava em dúvida, o pai de nossa nação ordenou que essas palavras fossem lidas para o povo:

"Que seja dito ao mundo futuro que, na profundidade do inverno, quando nada além da esperança e da virtude poderia sobreviver, a cidade e o país, alarmados diante de um perigo comum, saiu para enfrentá-lo."

América. Em face de nossos perigos comuns, neste inverno de nossas dificuldades, vamos lembrar essas palavras eternas. Com esperança e virtude, vamos enfrentar uma vez mais as correntes geladas e resistir quaisquer tempestades que possam vir. Que seja dito pelos filhos de nossos filhos que, quando fomos testados, nós nos recusamos a deixar esta jornada terminar, que nós não viramos as costas, que nós não vacilamos; e, com os olhos fixos no horizonte e a graça de Deus sobre nós, levamos adiante o grande dom da liberdade e o entregamos com segurança paras as gerações futuras.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Se fosse para levar a sério

Acho que hoje sou o único brasileiro contrário à demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol que não acordou com aquela cara de frustração, diante do que se viu ontem no Supremo Tribunal Federal. Não me frustrei porque há muito aprendi a prever as decisões do Estado brasileiro e isso faz com que, eu possa curtir minha fossa bem antes dos outros.

Não leitor, não sou dotado de nenhum tipo de percepção extra-sensorial e nem tampouco me qualifico como algum tipo de “intelectual”, voltado aos estudos das coisas da Nação. Sou uma pessoa de inteligência mediana que simplesmente descobriu o “pulo do gato” para antever as decisões do governo. Não é difícil, qualquer um pode conseguir.

Primeiro passo: selecione uma determinada questão que está prestes a ser resolvida por algum dos três poderes, ou algum assunto polêmico em vias de ser pacificado.

Segundo passo: imagine a solução que se mostre pior, mais ineficaz ou absurda dentre as possíveis. No caso de ser uma questão polêmica, selecione, dentre as soluções em debate, aquela que poderá trazer maiores prejuízos ao país, ao povo ou até mesmo ao seu bolso, se você quiser bancar o individualista. Pronto: Você já identificou qual é a solução que será defendida pelo Partido dos Trabalhadores.

Daí para a frente fica fácil. Como o PT hoje domina o Legislativo - onde detém maioria de votos e mantém uma minoria restante sob o cabresto de dossiês - o Judiciário - onde na mais alta Corte do país, já existe um grande número de Ministros indicados pelo atual governo – e a grande mídia - formada em sua maioria pela esquerdinha festiva que não consegue enxergar além dos próprios narizes - provavelmente a solução defendida pelo governo será adotada. Pode demorar um pouquinho, mas que ela será adotada será.

Utilizemos como exemplo a decisão de ontem:

A manutenção da reserva tal qual os padrecos de cocar e os índios de note book queriam já estava garantida pelo STF desde sempre. Só adiaram a coisa até o momento em que a Polícia Federal pudesse identificar os possíveis focos de resistência à medida, a fim de se posicionar de forma a neutralizá-los, afinal, uma carnificina entre índios e brancos em pleno século XXI seria uma péssima propaganda para um governo dito “progressista”.

Desde o governo FHC, a mais alta corte do país, longe de manter sua função de guardiã da Carta Magna, se transformou em um órgão auxiliar do governo de plantão. Prescindindo de proferir decisões à luz da Constituição Federal, passou a adotar o posicionamento menos maléfico aos interesses da instituição “governo”. Exemplos não faltam:

CPMF: Mesmo saltando aos olhos a inconstitucionalidade do tributo, o STF entendeu que o mesmo era perfeitamente legítimo, pelo simples fato de que a receita era imprescindível ao Governo FHC naquela época.

MENSALÃO: A mídia brasileira e os tontos de plantão correram para bradar que o país estava finalmente punindo a corrupção, quando, na verdade, o recebimento da denúncia dos mensaleiros era desejada pelo próprio governo, já que pôde alimentar o discurso de que “cortou na própria carne” para acabar com a corrupção. A verdade é que quase todos eles continuam lépidos, com seus mandatos renovados e sem incômodos. Não existe previsão para que sejam julgados e, provavelmente, quando isso ocorrer, a maioria dos crimes pelos quais foram denunciados estarão com a punibilidade prescrita, ou seja, ninguém irá em cana.

Diante desse histórico, entre delimitar a reserva Raposa Serra do Sol em ilhas, resguardando a soberania nacional, os interesses do Estado de Roraima, e o direito adquirido de proprietários de terra, e adotar uma reserva contínua onze vezes maior do que a cidade de São Paulo para abrigar menos de vinte mil índios, expulsar brasileiros de suas propriedades – algumas adquiridas há mais de um século – e transformar a fronteira do Brasil com a Venezuela em uma “terra de ninguém”, é óbvio que o STF decidiria pela segunda opção. A única incógnita se situava em qual a desculpa (leia-se fundamento jurídico) que seria dada para o disparate. O Ministro Menezes Direito não se fez de rogado e só faltou invocar Tupã para justificar sua decisão.

No fim, ao menos para este escriba, ficou um gostinho de “quero mais”. Ora, se os índios são os verdadeiros donos da terra, conforme sustentam os padrecos de cocar, os intelectuais petistas e agora o próprio STF, então o Estado brasileiro deveria estender essa definição para todo o território nacional. O governo petista deveria firmar acordos internacionais com Portugal, Itália, Espanha, Japão e outros países de onde nossos antepassados saíram para tentar a vida por essas bandas, garantindo nosso regresso para lá. O Estado brasileiro pagaria – como indenização pelos bens amealhados por aqui – as passagens áreas e algum dinheiro para nosso reinício no novo país. O território brasileiro, assim, ficaria inteiramente à livre para os silvícolas que poderiam dispor dele como bem quisessem.

Para que a medida não soasse meio, digamos assim, hipócrita, todos os apoiadores da teoria do direito indígena ancestral, aí incluídos o Partido dos Trabalhadores em massa, os Ministros do STF, os padres de passeata e a esquerda festiva nacional, estariam excluídos da medida e deveriam viver no novo Brasil e governados ad aeternum pelo grande cacique nove dedos.

Se a decisão do STF acerca da reserva Raposa Serra do Sol fosse para levar a sério, eu apoiaria a medida de imediato. Deixaria com alegria os poucos bens que amealhei aos meus irmãozinhos de pele vermelha e, resignado, retornaria para a Europa, de onde vieram meus ancestrais (talvez até imitando o gesto de Carlota Joaquina ao voltar para Portugal). E você leitor?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O Novo Brasil

Nos idos da década de 20, meu bisavô Caetano chegou ao Brasil, recém-casado, com uma filha de 4 anos em u’a mão e outro no ventre de minha bisavó. Fugia da situação caótica que a 1ª guerra mundial deixara em toda a Europa e buscava “fazer a América”. Dinheiro trazia pouquíssimo – só o suficiente para sobreviver um ou dois meses.

Meu bisavô, como muitos imigrantes que aqui aportaram, arrumou trabalho na lavoura de café. Posteriormente, transferiu-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou como “motorista de madame”. Cerca de quinze anos após sua chegada, finalmente conseguiu arrendar um “carro de praça”, com o qual trabalhou até o fim da vida, conseguindo formar – não só os dois filhos que aqui chegaram com ele – mas também outros cinco, “encomendados” depois.

Meu avô começou a trabalhar aos 14 anos de idade como entregador de carne em um açougue. Trabalhava sol a sol em cima de uma bicicleta e estudava durante a noite em escola pública. Terminou a vida como comerciante de automóveis e, como tal, pôde proporcionar à minha mãe educação numa das melhores escolas paulistanas (Dante Allighere) e deixá-la em situação patrimonial razoavelmente confortável após sua morte.

Qual o grande mérito de meu bisavô e meu avô?

Nenhum. Eles simplesmente fizeram aquilo que sempre foi feito em qualquer parte do mundo e, tal qual milhares de imigrantes que aqui chegaram vindos de todas as partes do mundo, construíram seu patrimônio a partir do nada tão somente com o suor do próprio trabalho. Hoje, na Europa e nos Estados Unidos, diversos brasileiros, inclusive, constroem do nada seu patrimônio com o suor do próprio trabalho da mesma forma que seus antepassados fizeram aqui no Brasil.

Por outro lado, nosso país vem a décadas privilegiando o ostracismo, a esperteza e a vagabundagem em detrimento do trabalho honesto. Em um país vasto e rico como o Brasil, trabalhar se tornou uma atividade que não vale a pena.

A classe média, tradicional e mundialmente reconhecida por ser a mola motora de crescimento da economia, já que emprega e consome, em nosso “novo Brasil”, resume-se à simples financiadora de um Estado que nada lhe devolve em troca por meio de serviços. Paga tributos escorchantes ao Estado e paga em dobro, eis que por não ter opções decentes de educação, saúde e segurança, tem que procurar tais serviços na iniciativa privada, que também paga altos tributos e os embute no preço passado à classe média.

O dinheiro arrecadado, afora os mensalões, dólares na cueca e outras “aloprações” da “companherada”, é utilizado para a cruel transformação da classe pobre brasileira em um verdadeiro curral: Pagam-se esmolas oficiais que, dentre outros requisitos, levam em conta o número de filhos para a quantificação da “benesse”, ou seja, incentiva-se o pobre a produzir mais eleitores fiéis, dispostos a apoiar qualquer coisa que o “líder carismático” e sua trupe propuserem, desde que recebam a paga mensal por isso.
No “novo Brasil” não se comemora o sucesso pessoal, ao contrário, ele é repudiado como algo vergonhoso e até arriscado. Quantos não são os milionários que prescindem de um automóvel importado para andar em um popular, a fim de evitar serem alvos da violência?

Naquela época descrita no início deste texto, o cidadão se orgulhava em dizer que havia começado do nada e construído este ou aquele patrimônio. Hoje, o indivíduo orgulha-se de “entrar na caixa” por causa de uma tendinite ou algo que o valha e continuar trabalhando informalmente, solapando recursos de outros que realmente precisam. É a homenagem à esperteza em detrimento da honestidade.

O certo é ser pobre, carente e dependente do Estado. Se você não se enquadra nestas características, parabéns: És mais um trouxa escalado para sustentar uma horda cada vez maior de “necessitados”. Se não concordas, que procure um “coiote” e vá tentar a vida nos “estates”.

O grande problema neste novo Brasil é que a conta não fecha por um motivo muito simples: deixamos de ser uma nação que mantém uma ficção jurídica chamada Estado, criada para fomentar as potencialidades de cada indivíduo, e nos tornamos um povo que tem como única e exclusiva função, a manutenção de um Estado formado por meia dúzia de privilegiados que tudo faz para barrar o desenvolvimento de nossas potencialidades individuais.

O nome disso não é democracia e nem tampouco república. O nome disso é – pasmem os leitores – FEUDALISMO. Sistema extinto no resto do mundo há pelo menos três séculos, e que se caracterizava, dentre outras coisas, pela cobrança confiscatória de tributos da plebe por um nobre, que em troca nada tinha que fazer senão permitir ao coitado que vivesse em suas terras. Qualquer semelhança com o novo Brasil não é mera coincidência.

Diante deste quadro, que não é grave, mas ridículo, restam às elites pensantes do Brasil perderem a vergonha de assim se assumirem e irem à luta. De nada nos adianta sentarmos e aguardarmos que, novamente, os militares saiam das casernas para nos salvar.

A última coisa que necessitamos é de uma “quartelada” sem explícito apoio popular, que somente serviria de pretexto para o recrudescimento do autoritarismo já verificado da “companherada”. O povo que quer ter a oportunidade de construir uma nação grande, pujante e soberana e que não quer que seus filhos virem escravos de um Estado cada vez mais faminto e sufocante, deve ir às ruas e deixar clara e inconteste, à moda antiga mesmo, a sua insatisfação. No momento em que isso acontecer, qualquer movimento de mudança se tornará legítimo, eis que nascido do clamor de uma nação.

Nesta batuta, se é necessário que alguém inicie este processo de auto-assunção, pois então lá vou eu:

“Sou da elite brasileira. Tenho orgulho de tal porque assim sou graças ao trabalho árduo meu e de gerações de meus antepassados que, sem a ajuda ou esmola de ninguém, se livraram da miséria. Quero as mesmas oportunidades para os meus filhos.”

Discurso na ADESG/SP

Passados quatro meses de intenso estudo e análise do Brasil, acredito que a primeira frase que desponta é “não fazíamos idéia”.

Não fazíamos idéia da pujança e das possibilidades de nosso País, em todas as expressões do Poder Nacional. Possuíamos, como seres pensantes que somos, a noção de que muito está sendo deixado em segundo plano. Só não tínhamos idéia de quanto.

É uma pena que nossas crianças e jovens não tenham a oportunidade de, em tenra idade, conhecer as expressões do Poder Nacional, a busca do Bem Comum e a necessidade da consecução dos objetivos fundamentais da nação. Certamente teríamos uma juventude um pouco mais centrada nas coisas do Brasil e menos suscetível ao discurso vazio de caudilhos populistas.

Também saltou aos olhos com admiração, as coisas incríveis que a mente criativa do brasileiro consegue realizar, para contornar a falta de incentivo e apoio.

Apenas para exemplificar menciono – dentre as visitas que realizamos – a base tecnológica de ARAMAR, da Marinha do Brasil.

Neste exemplo, o Brasil viu as portas do mundo se fecharem à sua intenção de desenvolver a tecnologia de enriquecimento de Urânio, negando-lhe o acesso ao conhecimento e até mesmo à aquisição de peças para a construção dos equipamentos necessários. Muitas nações do mundo teriam, nesta situação, optado por desistir do intento, ou buscar socorro junto ao deletério mercado negro internacional.

Não fizemos isso. Preferimos optar pela improvável solução de desenvolvimento de nossa própria tecnologia, e o resultado foi à criação de um sistema de enriquecimento de Urânio que hoje é cobiçado por todas as nações do mundo, tamanha sua inovação e avanço tecnológico.

O Brasil, desde seu nascedouro, é assim. Uma nação que diante das adversidades, opta pela mais improvável das soluções e alcança seus objetivos. Isso nos diferencia do resto do mundo.

Na época do Brasil-colonia, nosso território era extenso demais e nossos povoados separavam-se uns dos outros por densas regiões de selva, habitadas por tribos de todos os tons, algumas, inclusive, adeptas do canibalismo.

Enquanto as colônias espanholas seguiram um rumo que resultou na cisão em diversos países hoje nossos vizinhos, e quase dizimaram sua população indígena criando conflitos e ressentimentos que até hoje persistem, o Brasil fez a improvável opção de manter integralmente seu território e de integrar a população indígena à sociedade. Hoje, somos o maior país e a maior economia da América-Latina. Em nosso vasto território, repousam riquezas cobiçadas por todo o mundo. Ao contrário de nossos vizinhos, não registramos conflitos sérios envolvendo nossos índios.

Enquanto o processo de independência de nossos vizinhos se fez de forma sangrenta, no Brasil, novamente de forma improvável, a transição transcorreu de maneira relativamente pacífica.

No início do século XX, quando cidadãos da Europa e da Ásia, fugindo da guerra, escolheram nosso país como novo lar, novamente despontou a vocação brasileira para realizar o improvável. Da alma alegre e pacífica do brasileiro, resultou que hoje, aqui, vivem em perfeita harmonia árabes e judeus, ingleses e irlandeses, japoneses, coreanos e chineses. Povos que se digladiam no resto do mundo.

Entre as décadas de 50 e 80, amontoaram-se em toda a América Latina milhares de mortos, tombados de um lado ou de outro, no combate ao Comunismo que procurava se instalar no continente. No Brasil – que por sua extensão territorial deveria ter somado sozinho mais do o dobro dessa trágica cifra – atingiu-se o número de quinhentas vítimas. Improvável novamente.

Infelizmente contudo, senhores e senhoras, há momentos em que não sabemos dosar nossa tendência às soluções improváveis. Nos últimos anos, por exemplo, o mundo – à céu de brigadeiro – cresce à média de 8% ao ano, enquanto o Brasil, contrariando todas as probabilidades, se mantém em 3%. É, portanto, momento de nos concedermos um minuto de reflexão.

Novamente a história nos chama à aplicação de nossa vocação às improbabilidades. A América-Latina se lança a passos largos ao populismo autoritário e antidemocrático. A ideologização de questões que exigem pragmatismo, a internacionalização de interesses nacionais e a sublimação da miséria e da ignorância são políticas que vem sendo aplicadas em todo o continente, desconsiderando a busca do Bem Comum e ameaçando a manutenção dos nossos objetivos fundamentais, em especial a democracia.

O descaso e o abandono grassam em todas as expressões do Poder Nacional.

Na expressão militar, nossas Forças Armadas atuam mal remuneradas e sem investimentos de vulto, enquanto nossos vizinhos se armam até os dentes, esperando um conflito não se sabe com quem. Não bastasse isso, nossos militares de hoje e de ontem são constantemente caluniados em relação a fatos de nossa história recente, dos quais a versão deles nunca é perquirida. Se ainda resistem fiéis ao compromisso firmado perante o Pendão Nacional, é por puro amor à pátria.

Na expressão política, impera o descrédito justamente aos Poderes que traduzem a vontade do povo e a defendem do arbítrio do Estado: O Legislativo e o Judiciário. No Poder Executivo, por outro lado, mantém-se o personagem do Oásis da ética e da moralidade pública. O messias enviado para nos salvar do deserto de indecências e interesses pessoais.

Na expressão psico-social, o que se verifica é um povo anestesiado, catatônico, sendo paulatinamente doutrinado a esquecer o valor do trabalho e contentar-se com migalhas oficiais. Nossa juventude – sem qualquer perspectiva de futuro – lança-se nas garras do crime organizado. Na árdua tarefa de manter a lei e a ordem, nossos bravos policiais, a fim de evitar reprimendas e garantir a manutenção de seus empregos e o sustento de suas famílias, freqüentemente têm de prescindir do enfrentamento necessário a toda a sorte de marginais sanguinários, que são definidos como pobres vítimas da sociedade por pseudo-intelectuais de plantão.

Na Expressão Econômica, nossa vocação natural como “celeiro do mundo” vem sendo negada pelo descaso e pela irresponsabilidade, levando os agricultores e pecuaristas à bancarrota. Em todo o setor produtivo, privatizam-se os investimentos, mas socializam-se os lucros de quem trabalha e produz, mediante o emprego de tributos escorchantes e cada dia mais impagáveis. O Brasil passou a dar a cada um segundo suas necessidades, negligenciando o desejo do cidadão de conseguir aquilo que sua capacidade pessoal permite.

Por fim, na Expressão Tecnológica, temos perdido nossas maiores revelações científicas, que vão desenvolver seus talentos em outros países, que concedem incentivos condignos com a importância deste setor.

Qualquer que seja o ângulo que se analise, a situação é de caótico abandono. O que fazer?

Senhores e senhoras: Durante os quatro meses de nosso curso, ouvimos palestrantes ilustres nos definirem como “a elite pensante deste país”. Pergunto-lhes: De que adianta uma elite pensante que se resume apenas em pensar?

Acaso teríamos a vastidão territorial que temos se os líderes de Guararapes se resumissem a pensar na injustiça do pacto entre Portugal e Holanda?

Seríamos uma nação independente, se Dom Pedro I se dedicasse tão somente a elucubrações acerca das determinações de seu pai?

Acaso teríamos democracia se o General Olympio Mourão se ativesse a imaginar quais seriam os próximos passos de Jango?

O momento atual é de reflexão, mas também de ação. Não compete mais à parcela da sociedade que detém discernimento para antever o sombrio caminho trilhado pela nação brasileira, manter-se silente.

É necessário que os brasileiros que repousam anestesiados despertem pelo som de nossa voz.

É preciso que mais uma vez, o Brasil opte pelo caminho do improvável, rompendo com o modelo populista e autoritário que é implementado no resto da América Latina.

Se faltam lideranças que traduzam esse sentimento de indignação, então que parta da ADESG/SP o grito de BASTA!

Basta de acordos escusos, mensalões, mensalinhos, dinheiro em mala, sacola, cueca. O Brasil clama por ética e moral no trato da coisa pública e se os representantes do povo assim não procedem, então representam outra nação e outro povo, aético e imoral, que não o brasileiro.

Basta de messianismo, assistencialismo, esmolas oficiais e bovinização de eleitorado. O Brasil foi construído com 506 anos de trabalho árduo e somente com trabalho árduo de todos os brasileiros ocupará o lugar de destaque que lhe é destinado.

Basta de “país do futuro”, que só é afiançado aos “apaniguados do Rei”. O amanhã só será garantido a todos se, vislumbrando os equívocos de ontem, trabalharmos o hoje, com seriedade e foco.

Basta de alteração e ocultação da verdade de nossa história. Só se pode amar o que se respeita e só se respeita o que se conhece. Os verdadeiros mártires da história do Brasil clamam por reconhecimento e respeito.

Basta de condescendência com criminosos e facínoras de todos os matizes. Os cidadãos honestos têm o direito sagrado, democrático e inalienável ao desfrute de sua propriedade e de ir e vir livremente. Os marginais e contraventores devem suportar o rigor da Lei e do cárcere e não o contrário.

Basta senhores e senhoras. Só precisamos bradar Basta.

Encerrando minhas palavras, sugiro, como reflexão, que meditemos acerca dos seguintes versos, escritos por Américo Moura para a introdução do Hino Nacional Brasileiro:

Espera o Brasil

Que todos cumprai

Com vosso dever.

Eia avante, brasileiros

Sempre avante!

Gravai a buril

Nos pátios anais

Do vosso poder.

Eia avante brasileiros,

Sempre avante!

Servi o Brasil

Sem esmorecer

Com ânimo audaz

Cumpri o dever

Na guerra e na paz,

À sombra da lei

A brisa gentil

O lábaro erguei

Do belo Brasil.

Discurso proferido por mim na formatura da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-SP), em 24 de novembro, na presença de Adauto Rocheto, Delegado da ADESG/SP, Ricardo Ferreira Genari, coordenador do 49º Ciclo de Estudos de Política e Estratégia e autoridades civis e militares.