quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Discurso de Posse do Presidente Barack Obama Traduzido.

Eu me coloco aqui hoje humildemente diante da tarefa à nossa frente, grato pela confiança com que vocês me honraram, ciente dos sacrifícios realizados pelos nossos ancestrais. Eu agradeço ao presidente Bush pelo seu serviço à nossa nação, bem como pela generosidade e cooperação que ele mostrou ao longo da transição.

Quarenta e quatro americanos agora já fizeram o juramento presidencial. As palavras foram ditas durante crescentes marés de prosperidade e as águas calmas da paz. Mas, de tempos em tempos, o juramento é realizado entre nuvens que se formam e tempestades violentas. Nesses momentos, a América seguiu à frente não somente pela habilidade ou visão dos que estavam no alto escalão, mas porque Nós o Povo permanecemos confiantes nos ideais dos nossos ancestrais e fiéis aos nossos documentos fundadores.

Assim tem sido. Assim deve ser com essa geração de americanos.

Que nós estamos em meio a uma crise é agora bem sabido. Nossa nação está em guerra, contra uma rede de longo alcance de violência e ódio. Nossa economia está bastante enfraquecida, em consequência da ganância e irresponsabilidade por parte de alguns, mas também por nosso fracasso coletivo em fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era. Casas foram perdidas; empregos cortados; negócios fechados. Nosso sistema de saúde está muito dispendioso; nossas escolas fracassam com muitos; e cada dia traz novas evidências de que as formas como usamos a energia fortalecem nossos adversários e ameaçam nosso planeta.

Esses são os indicadores da crise, assunto de dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profundo, é o enfraquecimento da confiança ao longo de nossa terra - um medo repetido de que o declínio da América é inevitável, e que a próxima geração deve diminuir suas perspectivas.

Hoje eu digo a vocês que os desafios que nós enfrentamos são reais. Eles são sérios e são muitos. Eles não serão vencidos facilmente ou em um período curto de tempo. Mas saiba disso, América: eles serão vencidos.

Nesse dia, nos reunimos porque nós escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de propósito em vez do conflito e da discórdia.

Nesse dia, nós viemos para proclamar o fim às queixas mesquinhas e falsas promessas, às recriminações e aos dogmas desgastados, que por muito tempo já têm enfraquecido nossa política.

Nós continuamos uma nação jovem, mas de acordo com as palavras da Escritura, chegou a hora de se deixar de lado as infantilidades. Chegou a hora para reafirmar nosso espírito tolerante; para escolher nossa melhor história; para prosseguir com esse precioso dom, essa nobre ideia, passada de geração a geração: a promessa dada por Deus de que todos somos iguais, todos somos livres e todos merecem uma chance de buscar sua completa medida de felicidade.

Ao reafirmar a grandiosidade de nossa nação, nós entendemos que a grandeza nunca é dada. Ela deve ser conquistada. Nossa jornada nunca foi de atalhos ou de aceitar menos. Não foi a trilha dos inseguros - daqueles que preferem o descanso ao trabalho, buscam apenas os prazeres das riquezas e da fama. Em vez disso, (nossa jornada) tem sido uma de tomadores de risco, atuantes, fazedores das coisas - alguns celebrados, mas muitos outros homens e mulheres obscuros em seu trabalho - que nos levaram pela longa e espinhosa rota rumo à prosperidade e à liberdade.

Para nós, eles empacotaram suas poucas posses e viajaram pelos oceanos em busca de uma nova vida.

Para nós, eles trabalharam duro em fábricas exploradoras e seguiram rumo a Oeste; suportaram o açoite do chicote e lavraram a terra dura.

Para nós, eles lutaram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg; Normandy e Khe Sahn.

Ao longo do tempo, esses homens e mulheres lutaram e se sacrificaram e trabalharam até suas mãos ficarem em carne viva, para que pudéssemos ter uma vida melhor. Eles viram a América maior do que a soma de suas ambições individuais; maior que todas as diferenças de nascimento ou riqueza ou facção.

Essa é a jornada que nós continuamos hoje. Nós permanecemos a mais próspera e poderosa nação da Terra. Nossos trabalhadores não são menos produtivos do que quando essa crise começou. Nossas mentes não têm menos imaginação, nossas mercadorias e serviços não são menos necessários do que eram na semana passada, no mês passado ou no ano passado. Nossa capacidade permanece a mesma. Mas nossa hora de proteger interesses estreitos e adiar decisões desagradáveis - esse tempo certamente passou. Começando hoje, nós precisamos nos levantar e começar de novo o trabalho de reconstruir a América.

Para todos os lugares que olhemos, existe trabalho a ser feito. A situação da nossa economia pede ação, ágil e rápida, e nós agiremos - não apenas para criar novos empregos, mas para lançar a fundação para o crescimento. Nós construiremos as estradas e pontes, as instalações elétricas e linhas digitais que alimentam nosso comércio e nos mantém juntos. Nós levaremos a ciência a seu lugar de merecimento e controlaremos as maravilhas da tecnologia para aumentar a qualidade do sistema de saúde e reduzir seu custo.

Nós usaremos o Sol e os ventos e o solo para abastecer nossos carros e movimentar nossas fábricas. Nós transformaremos nossas escolas, faculdades e universidades para suprir as demandas de uma nova era. Tudo isso nós podemos fazer. E tudo isso nós faremos.

Agora, existem alguns que questionam a escala das nossas ambições - que sugerem que nosso sistema não pode aguentar planos tão grandiosos. Eles têm memória curta. Porque eles se esqueceram de tudo o que nosso país fez; o que homens e mulheres livres podem conseguir quando a imaginação se junta para objetivos comuns e a necessidade para a coragem.

O que os cínicos não entendem é que o chão que eles pisam não é mais o mesmo - que as disputas políticas que nos envolveram por muito tempo não existem mais. A questão que perguntamos hoje não é se nosso governo é muito grande ou muito pequeno, mas se ele funciona - se ele ajuda as famílias a encontrarem empregos que pagam um salário decente, que tipo de seguridade eles dão, uma aposentadoria que seja digna. Onde a resposta é sim, nós queremos ir em frente. Onde a resposta é não, os programas acabarão. E aqueles de nós que manejam os dólares públicos terão que prestar contas - para gastar de maneira sábia, reformar maus hábitos, e fazer nossos negócios à luz do dia - porque apenas assim nós podemos restaurar a confiança vital entre o povo e o governo.

Também não á a questão que se apresenta a nós se o mercado é uma força para o bem ou para o mal. Seu poder de gerar riquezas e expandir a liberdade é ilimitado, mas esta crise nos fez lembrar que sem vigilância, o mercado pode sair do controle - e uma nação não pode prosperar por muito tempo quando favorece apenas os mais ricos. O sucesso da nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho do nosso Produto Interno Bruto (PIB), mas do poder da nossa prosperidade; na nossa habilidade de estendê-la a cada um, não por caridade, mas porque esse é o caminho mais seguro para o bem comum.

Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos a falsa escolha entre nossa segurança e nossos ideais. Os fundadores do país, que enfrentaram perigos que sequer imaginamos, redigiram uma carta para assegurar o primado da lei e dos direitos do homem, uma carta expandida pelo sangue de gerações. Esses ideais ainda iluminam o mundo, e nós não vamos abandoná-los por conveniência. E, então, para todos os povos e governos que estão assistindo hoje, das grandes capitais ao pequeno vilarejo onde meu pai nasceu: Saibam que a América é amiga de cada nação e de cada homem, mulher ou criança que procure um futuro de paz e dignidade, e que nós estamos prontos para liderar uma vez mais.

Lembrem-se que gerações anteriores enfrentaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com alianças robustas e convicções duradouras. Eles entenderam que nosso poder sozinho não pode nos proteger, nem nos dá o direito de fazer o que quisermos. Em vez disso, eles entenderam que nosso poder cresce com seu uso prudente; nossa segurança emana da Justiça de nossa causa, da força de nosso exemplo, da têmpera das qualidades de humildade e moderação.

Nós somos os guardiães desse legado. Guiados por esses princípios uma vez mais, podemos enfrentar novas ameaças que exigem um esforço maior - maior cooperação e compreensão entre as nações. Começaremos por sair do Iraque com responsabilidade e por criar um esforço de paz no Afeganistão. Com velhos amigos e antigos adversários vamos trabalhar incansavelmente para diminuir a ameaça nuclear, e reduzir o espectro do aquecimento global. Não vamos pedir desculpas por nosso modo de vida, nem vamos vacilar em sua defesa, e, para aqueles que procurarem avançar em seus objetivos produzindo terror e matando inocentes, diremos a eles que nosso espírito é mais forte e não pode ser quebrado; eles não poderão prevalecer e nós os derrotaremos.

Sabemos que nossa herança multicultural é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus - e ateus. Somos moldados por cada língua e cultura, de cada parte desta Terra; e por causa disso provamos o sabor mais amargo da guerra civil e da segregação e emergimos desse capítulo mais fortes e mais unidos; não podemos senão acreditar que os velhos ódios passarão um dia; que as linhas das tribos vão se dissolver rapidamente; que o mundo ficará menor, nossa humanidade comum deve revelar-se; e que a América vai desempenhar o seu papel em uma nova era de paz.

Para o mundo muçulmano, buscamos um novo caminho a seguir, baseado em interesse e respeito mútuo. Para aqueles líderes pelo mundo que buscam semear o conflito, ou culpam o Ocidente pelos males de suas sociedades: Saibam que seus povos irão julgá-los a partir do que vocês podem construir, e não destruir. Para aqueles que se agarram ao poder por meio da fraude e da corrupção, saibam que estão no lado errado da História; mas nós estenderemos a mão se vocês estiverem dispostos a cooperar.

Às pessoas das nações pobres, nós queremos trabalhar a seu lado para fazer suas fazendas florescerem e deixar os cursos de água limpa fluírem; para nutrir corpos famintos e alimentar mentes ávidas. E para aquelas nações como a nossa, que vivem em relativa riqueza, queremos dizer que não podemos mais suportar a indiferença quanto ao sofrimento daqueles que sofrem fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem nos importar com as consequências. Nós devemos acompanhar as mudanças do mundo.

À medida que entendemos o caminho que se desdobra diante de nós, recordamos com humilde gratidão aqueles bravos americanos que, a esta mesma hora, patrulham longínquos desertos e montanhas distantes. Eles têm algo a nos dizer hoje, como aqueles heróis caídos que jazem em Arlington murmuram através dos tempos. Nós os honramos não apenas porque eles são os guardiães de nossa liberdade, mas porque eles representam o espírito de servir ao país; a disposição de encontrar um significado maior que si mesmos. E ainda, neste momento - um momento que vai definir uma geração - é precisamente esse espírito que todos nós devemos viver.

Porque, por mais que o governo possa fazer e precise fazer, em última instância é da fé e da determinação do povo americano que esta nação depende. É a bondade de receber um estranho quando os diques se rompem, é o desprendimento de trabalhadores que preferem reduzir suas horas a ver um companheiro perder o emprego o que nos auxilia em nossas horas mais sombrias. É a coragem do bombeiro de subir uma escada cheia de fumaça, mas também a disposição de pais de criar uma criança o que, no fim das contas, decide o nosso destino.

Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com os quais nós os enfrentamos podem ser novos. Mas aqueles valores dos quais nosso sucesso depende - trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo - essas coisas são antigas. Essas coisas são verdadeiras. Elas têm sido a força quieta do progresso ao longo de nossa história. O que se exige, então, é uma volta a essas verdades. O que se exige de nós agora é uma nova era de responsabilidade - um reconhecimento, por parte de todo americano, de que nós temos deveres para conosco, nossa nação e o mundo; deveres que nós não aceitamos a contragosto, mas com alegria, firmes no conhecimento de que não há nada tão satisfatório para o espírito, tão definidor de nosso caráter, do que dar tudo o que podemos numa tarefa difícil.

Este é o preço e a promessa da cidadania.

Esta é a fonte de nossa confiança - o conhecimento de que Deus nos convoca a dar forma a um destino incerto.

Este é o significado de nossa liberdade e de nosso credo - por que homens e mulheres e crianças de toda raça e de toda fé podem se unir numa celebração neste magnífico Mall, e por que um homem cujo pai, menos de 60 anos atrás, poderia não ser servido num restaurante local, agora pode estar diante de vocês para fazer um juramento sagrado.

Por isso, vamos marcar esse dia com a lembrança de quem somos e quão longe viajamos. No ano do nascimento da América, no mais frio dos meses, um pequeno grupo de patriotas se encolhia em torno de fogueiras que se apagavam, às margens de um rio gelado. A capital estava abandonada. O inimigo estava avançando. A neve estava manchada de sangue. Num momento em que nossa revolução estava em dúvida, o pai de nossa nação ordenou que essas palavras fossem lidas para o povo:

"Que seja dito ao mundo futuro que, na profundidade do inverno, quando nada além da esperança e da virtude poderia sobreviver, a cidade e o país, alarmados diante de um perigo comum, saiu para enfrentá-lo."

América. Em face de nossos perigos comuns, neste inverno de nossas dificuldades, vamos lembrar essas palavras eternas. Com esperança e virtude, vamos enfrentar uma vez mais as correntes geladas e resistir quaisquer tempestades que possam vir. Que seja dito pelos filhos de nossos filhos que, quando fomos testados, nós nos recusamos a deixar esta jornada terminar, que nós não viramos as costas, que nós não vacilamos; e, com os olhos fixos no horizonte e a graça de Deus sobre nós, levamos adiante o grande dom da liberdade e o entregamos com segurança paras as gerações futuras.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Se fosse para levar a sério

Acho que hoje sou o único brasileiro contrário à demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol que não acordou com aquela cara de frustração, diante do que se viu ontem no Supremo Tribunal Federal. Não me frustrei porque há muito aprendi a prever as decisões do Estado brasileiro e isso faz com que, eu possa curtir minha fossa bem antes dos outros.

Não leitor, não sou dotado de nenhum tipo de percepção extra-sensorial e nem tampouco me qualifico como algum tipo de “intelectual”, voltado aos estudos das coisas da Nação. Sou uma pessoa de inteligência mediana que simplesmente descobriu o “pulo do gato” para antever as decisões do governo. Não é difícil, qualquer um pode conseguir.

Primeiro passo: selecione uma determinada questão que está prestes a ser resolvida por algum dos três poderes, ou algum assunto polêmico em vias de ser pacificado.

Segundo passo: imagine a solução que se mostre pior, mais ineficaz ou absurda dentre as possíveis. No caso de ser uma questão polêmica, selecione, dentre as soluções em debate, aquela que poderá trazer maiores prejuízos ao país, ao povo ou até mesmo ao seu bolso, se você quiser bancar o individualista. Pronto: Você já identificou qual é a solução que será defendida pelo Partido dos Trabalhadores.

Daí para a frente fica fácil. Como o PT hoje domina o Legislativo - onde detém maioria de votos e mantém uma minoria restante sob o cabresto de dossiês - o Judiciário - onde na mais alta Corte do país, já existe um grande número de Ministros indicados pelo atual governo – e a grande mídia - formada em sua maioria pela esquerdinha festiva que não consegue enxergar além dos próprios narizes - provavelmente a solução defendida pelo governo será adotada. Pode demorar um pouquinho, mas que ela será adotada será.

Utilizemos como exemplo a decisão de ontem:

A manutenção da reserva tal qual os padrecos de cocar e os índios de note book queriam já estava garantida pelo STF desde sempre. Só adiaram a coisa até o momento em que a Polícia Federal pudesse identificar os possíveis focos de resistência à medida, a fim de se posicionar de forma a neutralizá-los, afinal, uma carnificina entre índios e brancos em pleno século XXI seria uma péssima propaganda para um governo dito “progressista”.

Desde o governo FHC, a mais alta corte do país, longe de manter sua função de guardiã da Carta Magna, se transformou em um órgão auxiliar do governo de plantão. Prescindindo de proferir decisões à luz da Constituição Federal, passou a adotar o posicionamento menos maléfico aos interesses da instituição “governo”. Exemplos não faltam:

CPMF: Mesmo saltando aos olhos a inconstitucionalidade do tributo, o STF entendeu que o mesmo era perfeitamente legítimo, pelo simples fato de que a receita era imprescindível ao Governo FHC naquela época.

MENSALÃO: A mídia brasileira e os tontos de plantão correram para bradar que o país estava finalmente punindo a corrupção, quando, na verdade, o recebimento da denúncia dos mensaleiros era desejada pelo próprio governo, já que pôde alimentar o discurso de que “cortou na própria carne” para acabar com a corrupção. A verdade é que quase todos eles continuam lépidos, com seus mandatos renovados e sem incômodos. Não existe previsão para que sejam julgados e, provavelmente, quando isso ocorrer, a maioria dos crimes pelos quais foram denunciados estarão com a punibilidade prescrita, ou seja, ninguém irá em cana.

Diante desse histórico, entre delimitar a reserva Raposa Serra do Sol em ilhas, resguardando a soberania nacional, os interesses do Estado de Roraima, e o direito adquirido de proprietários de terra, e adotar uma reserva contínua onze vezes maior do que a cidade de São Paulo para abrigar menos de vinte mil índios, expulsar brasileiros de suas propriedades – algumas adquiridas há mais de um século – e transformar a fronteira do Brasil com a Venezuela em uma “terra de ninguém”, é óbvio que o STF decidiria pela segunda opção. A única incógnita se situava em qual a desculpa (leia-se fundamento jurídico) que seria dada para o disparate. O Ministro Menezes Direito não se fez de rogado e só faltou invocar Tupã para justificar sua decisão.

No fim, ao menos para este escriba, ficou um gostinho de “quero mais”. Ora, se os índios são os verdadeiros donos da terra, conforme sustentam os padrecos de cocar, os intelectuais petistas e agora o próprio STF, então o Estado brasileiro deveria estender essa definição para todo o território nacional. O governo petista deveria firmar acordos internacionais com Portugal, Itália, Espanha, Japão e outros países de onde nossos antepassados saíram para tentar a vida por essas bandas, garantindo nosso regresso para lá. O Estado brasileiro pagaria – como indenização pelos bens amealhados por aqui – as passagens áreas e algum dinheiro para nosso reinício no novo país. O território brasileiro, assim, ficaria inteiramente à livre para os silvícolas que poderiam dispor dele como bem quisessem.

Para que a medida não soasse meio, digamos assim, hipócrita, todos os apoiadores da teoria do direito indígena ancestral, aí incluídos o Partido dos Trabalhadores em massa, os Ministros do STF, os padres de passeata e a esquerda festiva nacional, estariam excluídos da medida e deveriam viver no novo Brasil e governados ad aeternum pelo grande cacique nove dedos.

Se a decisão do STF acerca da reserva Raposa Serra do Sol fosse para levar a sério, eu apoiaria a medida de imediato. Deixaria com alegria os poucos bens que amealhei aos meus irmãozinhos de pele vermelha e, resignado, retornaria para a Europa, de onde vieram meus ancestrais (talvez até imitando o gesto de Carlota Joaquina ao voltar para Portugal). E você leitor?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O Novo Brasil

Nos idos da década de 20, meu bisavô Caetano chegou ao Brasil, recém-casado, com uma filha de 4 anos em u’a mão e outro no ventre de minha bisavó. Fugia da situação caótica que a 1ª guerra mundial deixara em toda a Europa e buscava “fazer a América”. Dinheiro trazia pouquíssimo – só o suficiente para sobreviver um ou dois meses.

Meu bisavô, como muitos imigrantes que aqui aportaram, arrumou trabalho na lavoura de café. Posteriormente, transferiu-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou como “motorista de madame”. Cerca de quinze anos após sua chegada, finalmente conseguiu arrendar um “carro de praça”, com o qual trabalhou até o fim da vida, conseguindo formar – não só os dois filhos que aqui chegaram com ele – mas também outros cinco, “encomendados” depois.

Meu avô começou a trabalhar aos 14 anos de idade como entregador de carne em um açougue. Trabalhava sol a sol em cima de uma bicicleta e estudava durante a noite em escola pública. Terminou a vida como comerciante de automóveis e, como tal, pôde proporcionar à minha mãe educação numa das melhores escolas paulistanas (Dante Allighere) e deixá-la em situação patrimonial razoavelmente confortável após sua morte.

Qual o grande mérito de meu bisavô e meu avô?

Nenhum. Eles simplesmente fizeram aquilo que sempre foi feito em qualquer parte do mundo e, tal qual milhares de imigrantes que aqui chegaram vindos de todas as partes do mundo, construíram seu patrimônio a partir do nada tão somente com o suor do próprio trabalho. Hoje, na Europa e nos Estados Unidos, diversos brasileiros, inclusive, constroem do nada seu patrimônio com o suor do próprio trabalho da mesma forma que seus antepassados fizeram aqui no Brasil.

Por outro lado, nosso país vem a décadas privilegiando o ostracismo, a esperteza e a vagabundagem em detrimento do trabalho honesto. Em um país vasto e rico como o Brasil, trabalhar se tornou uma atividade que não vale a pena.

A classe média, tradicional e mundialmente reconhecida por ser a mola motora de crescimento da economia, já que emprega e consome, em nosso “novo Brasil”, resume-se à simples financiadora de um Estado que nada lhe devolve em troca por meio de serviços. Paga tributos escorchantes ao Estado e paga em dobro, eis que por não ter opções decentes de educação, saúde e segurança, tem que procurar tais serviços na iniciativa privada, que também paga altos tributos e os embute no preço passado à classe média.

O dinheiro arrecadado, afora os mensalões, dólares na cueca e outras “aloprações” da “companherada”, é utilizado para a cruel transformação da classe pobre brasileira em um verdadeiro curral: Pagam-se esmolas oficiais que, dentre outros requisitos, levam em conta o número de filhos para a quantificação da “benesse”, ou seja, incentiva-se o pobre a produzir mais eleitores fiéis, dispostos a apoiar qualquer coisa que o “líder carismático” e sua trupe propuserem, desde que recebam a paga mensal por isso.
No “novo Brasil” não se comemora o sucesso pessoal, ao contrário, ele é repudiado como algo vergonhoso e até arriscado. Quantos não são os milionários que prescindem de um automóvel importado para andar em um popular, a fim de evitar serem alvos da violência?

Naquela época descrita no início deste texto, o cidadão se orgulhava em dizer que havia começado do nada e construído este ou aquele patrimônio. Hoje, o indivíduo orgulha-se de “entrar na caixa” por causa de uma tendinite ou algo que o valha e continuar trabalhando informalmente, solapando recursos de outros que realmente precisam. É a homenagem à esperteza em detrimento da honestidade.

O certo é ser pobre, carente e dependente do Estado. Se você não se enquadra nestas características, parabéns: És mais um trouxa escalado para sustentar uma horda cada vez maior de “necessitados”. Se não concordas, que procure um “coiote” e vá tentar a vida nos “estates”.

O grande problema neste novo Brasil é que a conta não fecha por um motivo muito simples: deixamos de ser uma nação que mantém uma ficção jurídica chamada Estado, criada para fomentar as potencialidades de cada indivíduo, e nos tornamos um povo que tem como única e exclusiva função, a manutenção de um Estado formado por meia dúzia de privilegiados que tudo faz para barrar o desenvolvimento de nossas potencialidades individuais.

O nome disso não é democracia e nem tampouco república. O nome disso é – pasmem os leitores – FEUDALISMO. Sistema extinto no resto do mundo há pelo menos três séculos, e que se caracterizava, dentre outras coisas, pela cobrança confiscatória de tributos da plebe por um nobre, que em troca nada tinha que fazer senão permitir ao coitado que vivesse em suas terras. Qualquer semelhança com o novo Brasil não é mera coincidência.

Diante deste quadro, que não é grave, mas ridículo, restam às elites pensantes do Brasil perderem a vergonha de assim se assumirem e irem à luta. De nada nos adianta sentarmos e aguardarmos que, novamente, os militares saiam das casernas para nos salvar.

A última coisa que necessitamos é de uma “quartelada” sem explícito apoio popular, que somente serviria de pretexto para o recrudescimento do autoritarismo já verificado da “companherada”. O povo que quer ter a oportunidade de construir uma nação grande, pujante e soberana e que não quer que seus filhos virem escravos de um Estado cada vez mais faminto e sufocante, deve ir às ruas e deixar clara e inconteste, à moda antiga mesmo, a sua insatisfação. No momento em que isso acontecer, qualquer movimento de mudança se tornará legítimo, eis que nascido do clamor de uma nação.

Nesta batuta, se é necessário que alguém inicie este processo de auto-assunção, pois então lá vou eu:

“Sou da elite brasileira. Tenho orgulho de tal porque assim sou graças ao trabalho árduo meu e de gerações de meus antepassados que, sem a ajuda ou esmola de ninguém, se livraram da miséria. Quero as mesmas oportunidades para os meus filhos.”

Discurso na ADESG/SP

Passados quatro meses de intenso estudo e análise do Brasil, acredito que a primeira frase que desponta é “não fazíamos idéia”.

Não fazíamos idéia da pujança e das possibilidades de nosso País, em todas as expressões do Poder Nacional. Possuíamos, como seres pensantes que somos, a noção de que muito está sendo deixado em segundo plano. Só não tínhamos idéia de quanto.

É uma pena que nossas crianças e jovens não tenham a oportunidade de, em tenra idade, conhecer as expressões do Poder Nacional, a busca do Bem Comum e a necessidade da consecução dos objetivos fundamentais da nação. Certamente teríamos uma juventude um pouco mais centrada nas coisas do Brasil e menos suscetível ao discurso vazio de caudilhos populistas.

Também saltou aos olhos com admiração, as coisas incríveis que a mente criativa do brasileiro consegue realizar, para contornar a falta de incentivo e apoio.

Apenas para exemplificar menciono – dentre as visitas que realizamos – a base tecnológica de ARAMAR, da Marinha do Brasil.

Neste exemplo, o Brasil viu as portas do mundo se fecharem à sua intenção de desenvolver a tecnologia de enriquecimento de Urânio, negando-lhe o acesso ao conhecimento e até mesmo à aquisição de peças para a construção dos equipamentos necessários. Muitas nações do mundo teriam, nesta situação, optado por desistir do intento, ou buscar socorro junto ao deletério mercado negro internacional.

Não fizemos isso. Preferimos optar pela improvável solução de desenvolvimento de nossa própria tecnologia, e o resultado foi à criação de um sistema de enriquecimento de Urânio que hoje é cobiçado por todas as nações do mundo, tamanha sua inovação e avanço tecnológico.

O Brasil, desde seu nascedouro, é assim. Uma nação que diante das adversidades, opta pela mais improvável das soluções e alcança seus objetivos. Isso nos diferencia do resto do mundo.

Na época do Brasil-colonia, nosso território era extenso demais e nossos povoados separavam-se uns dos outros por densas regiões de selva, habitadas por tribos de todos os tons, algumas, inclusive, adeptas do canibalismo.

Enquanto as colônias espanholas seguiram um rumo que resultou na cisão em diversos países hoje nossos vizinhos, e quase dizimaram sua população indígena criando conflitos e ressentimentos que até hoje persistem, o Brasil fez a improvável opção de manter integralmente seu território e de integrar a população indígena à sociedade. Hoje, somos o maior país e a maior economia da América-Latina. Em nosso vasto território, repousam riquezas cobiçadas por todo o mundo. Ao contrário de nossos vizinhos, não registramos conflitos sérios envolvendo nossos índios.

Enquanto o processo de independência de nossos vizinhos se fez de forma sangrenta, no Brasil, novamente de forma improvável, a transição transcorreu de maneira relativamente pacífica.

No início do século XX, quando cidadãos da Europa e da Ásia, fugindo da guerra, escolheram nosso país como novo lar, novamente despontou a vocação brasileira para realizar o improvável. Da alma alegre e pacífica do brasileiro, resultou que hoje, aqui, vivem em perfeita harmonia árabes e judeus, ingleses e irlandeses, japoneses, coreanos e chineses. Povos que se digladiam no resto do mundo.

Entre as décadas de 50 e 80, amontoaram-se em toda a América Latina milhares de mortos, tombados de um lado ou de outro, no combate ao Comunismo que procurava se instalar no continente. No Brasil – que por sua extensão territorial deveria ter somado sozinho mais do o dobro dessa trágica cifra – atingiu-se o número de quinhentas vítimas. Improvável novamente.

Infelizmente contudo, senhores e senhoras, há momentos em que não sabemos dosar nossa tendência às soluções improváveis. Nos últimos anos, por exemplo, o mundo – à céu de brigadeiro – cresce à média de 8% ao ano, enquanto o Brasil, contrariando todas as probabilidades, se mantém em 3%. É, portanto, momento de nos concedermos um minuto de reflexão.

Novamente a história nos chama à aplicação de nossa vocação às improbabilidades. A América-Latina se lança a passos largos ao populismo autoritário e antidemocrático. A ideologização de questões que exigem pragmatismo, a internacionalização de interesses nacionais e a sublimação da miséria e da ignorância são políticas que vem sendo aplicadas em todo o continente, desconsiderando a busca do Bem Comum e ameaçando a manutenção dos nossos objetivos fundamentais, em especial a democracia.

O descaso e o abandono grassam em todas as expressões do Poder Nacional.

Na expressão militar, nossas Forças Armadas atuam mal remuneradas e sem investimentos de vulto, enquanto nossos vizinhos se armam até os dentes, esperando um conflito não se sabe com quem. Não bastasse isso, nossos militares de hoje e de ontem são constantemente caluniados em relação a fatos de nossa história recente, dos quais a versão deles nunca é perquirida. Se ainda resistem fiéis ao compromisso firmado perante o Pendão Nacional, é por puro amor à pátria.

Na expressão política, impera o descrédito justamente aos Poderes que traduzem a vontade do povo e a defendem do arbítrio do Estado: O Legislativo e o Judiciário. No Poder Executivo, por outro lado, mantém-se o personagem do Oásis da ética e da moralidade pública. O messias enviado para nos salvar do deserto de indecências e interesses pessoais.

Na expressão psico-social, o que se verifica é um povo anestesiado, catatônico, sendo paulatinamente doutrinado a esquecer o valor do trabalho e contentar-se com migalhas oficiais. Nossa juventude – sem qualquer perspectiva de futuro – lança-se nas garras do crime organizado. Na árdua tarefa de manter a lei e a ordem, nossos bravos policiais, a fim de evitar reprimendas e garantir a manutenção de seus empregos e o sustento de suas famílias, freqüentemente têm de prescindir do enfrentamento necessário a toda a sorte de marginais sanguinários, que são definidos como pobres vítimas da sociedade por pseudo-intelectuais de plantão.

Na Expressão Econômica, nossa vocação natural como “celeiro do mundo” vem sendo negada pelo descaso e pela irresponsabilidade, levando os agricultores e pecuaristas à bancarrota. Em todo o setor produtivo, privatizam-se os investimentos, mas socializam-se os lucros de quem trabalha e produz, mediante o emprego de tributos escorchantes e cada dia mais impagáveis. O Brasil passou a dar a cada um segundo suas necessidades, negligenciando o desejo do cidadão de conseguir aquilo que sua capacidade pessoal permite.

Por fim, na Expressão Tecnológica, temos perdido nossas maiores revelações científicas, que vão desenvolver seus talentos em outros países, que concedem incentivos condignos com a importância deste setor.

Qualquer que seja o ângulo que se analise, a situação é de caótico abandono. O que fazer?

Senhores e senhoras: Durante os quatro meses de nosso curso, ouvimos palestrantes ilustres nos definirem como “a elite pensante deste país”. Pergunto-lhes: De que adianta uma elite pensante que se resume apenas em pensar?

Acaso teríamos a vastidão territorial que temos se os líderes de Guararapes se resumissem a pensar na injustiça do pacto entre Portugal e Holanda?

Seríamos uma nação independente, se Dom Pedro I se dedicasse tão somente a elucubrações acerca das determinações de seu pai?

Acaso teríamos democracia se o General Olympio Mourão se ativesse a imaginar quais seriam os próximos passos de Jango?

O momento atual é de reflexão, mas também de ação. Não compete mais à parcela da sociedade que detém discernimento para antever o sombrio caminho trilhado pela nação brasileira, manter-se silente.

É necessário que os brasileiros que repousam anestesiados despertem pelo som de nossa voz.

É preciso que mais uma vez, o Brasil opte pelo caminho do improvável, rompendo com o modelo populista e autoritário que é implementado no resto da América Latina.

Se faltam lideranças que traduzam esse sentimento de indignação, então que parta da ADESG/SP o grito de BASTA!

Basta de acordos escusos, mensalões, mensalinhos, dinheiro em mala, sacola, cueca. O Brasil clama por ética e moral no trato da coisa pública e se os representantes do povo assim não procedem, então representam outra nação e outro povo, aético e imoral, que não o brasileiro.

Basta de messianismo, assistencialismo, esmolas oficiais e bovinização de eleitorado. O Brasil foi construído com 506 anos de trabalho árduo e somente com trabalho árduo de todos os brasileiros ocupará o lugar de destaque que lhe é destinado.

Basta de “país do futuro”, que só é afiançado aos “apaniguados do Rei”. O amanhã só será garantido a todos se, vislumbrando os equívocos de ontem, trabalharmos o hoje, com seriedade e foco.

Basta de alteração e ocultação da verdade de nossa história. Só se pode amar o que se respeita e só se respeita o que se conhece. Os verdadeiros mártires da história do Brasil clamam por reconhecimento e respeito.

Basta de condescendência com criminosos e facínoras de todos os matizes. Os cidadãos honestos têm o direito sagrado, democrático e inalienável ao desfrute de sua propriedade e de ir e vir livremente. Os marginais e contraventores devem suportar o rigor da Lei e do cárcere e não o contrário.

Basta senhores e senhoras. Só precisamos bradar Basta.

Encerrando minhas palavras, sugiro, como reflexão, que meditemos acerca dos seguintes versos, escritos por Américo Moura para a introdução do Hino Nacional Brasileiro:

Espera o Brasil

Que todos cumprai

Com vosso dever.

Eia avante, brasileiros

Sempre avante!

Gravai a buril

Nos pátios anais

Do vosso poder.

Eia avante brasileiros,

Sempre avante!

Servi o Brasil

Sem esmorecer

Com ânimo audaz

Cumpri o dever

Na guerra e na paz,

À sombra da lei

A brisa gentil

O lábaro erguei

Do belo Brasil.

Discurso proferido por mim na formatura da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-SP), em 24 de novembro, na presença de Adauto Rocheto, Delegado da ADESG/SP, Ricardo Ferreira Genari, coordenador do 49º Ciclo de Estudos de Política e Estratégia e autoridades civis e militares.

terça-feira, 25 de julho de 2006

Velho dinossauro, novas idéias

Para aqueles que acreditam que "revolução socialista" se dá somente com bombas, tiros, sangue, choro e ranger de dentes e esquece das lições de Antonio Gramsci, comunista italiano para quem a revolução deve ser feita "comendo pelas beiradas" e subvertendo gradativamente os valores sociais, é interessante a leitura da matéria abaixo.



Bruno Maranhão, líder do MLST, já gostou de Guevara, Fidel e Lenin, mas hoje está mudado. Prefere Hugo Chávez

Paulo Moreira Leite
BRASÍLIA


A vida não pára de pregar peças no engenheiro Bruno Maranhão, de 66 anos, filho de usineiros "por parte de pai e de mãe, pois cada família tinha a sua usina". Guerrilheiro urbano sob o regime militar, ele participou de um assalto a banco, mas nunca foi preso - chegou a ser detido e torturado durante algumas horas, sendo liberado pouco depois.
Três décadas mais tarde, quando o Planalto é ocupado por Luiz Inácio Lula da Silva, aliado político de mais de duas décadas e amigo tão próximo que muitas vezes chegou a ficar hospedado em sua casa no Recife, ele passou 38 dias trancafiado numa prisão de Brasília. Foi algemado e preso pela Polícia Legislativa, que cumpre ordens do presidente da Câmara, Aldo Rebelo, deputado do PC do B, partido que, na mesma época em que ele vivia na clandestinidade, protagonizou a guerrilha do Araguaia.
Nos primeiros dias, Maranhão foi mantido em regime de isolamento, cumprindo a temporada restante em companhia de um policial condenado a muitas dezenas de anos por homicídio. Tudo isso porque, na tarde estranha e terrível de 6 de junho, um grupo de militantes do Movimento pela Libertação dos Sem-Terra (MLST), do qual ele é o fundador e líder principal, promoveu cenas de arruaça e baderna no Congresso. A maioria dos brasileiros não consegue se esquecer das imagens de um automóvel revirado, vidraças quebradas e, mais do que tudo, uma militante do MLST destruindo caixas eletrônicos em movimentos que pareciam golpes de espada. Os adversários eleitorais do amigo de Lula também não se esquecem e foi por essa razão que, quando Maranhão deixou a cadeia, na semana passada, o PT tratou de informá-lo de que não será personalidade bem-vinda nos palanques da reeleição.
A memória dele sobre a tarde de 6 de junho é diferente da que ficou à Nação - não por sua culpa, exclusivamente.
RESPONSABILIDADE
Quando a baderna explodiu, ele se encontrava no gabinete de um deputado petista. Dirigente do PT, Maranhão tinha ido ao Congresso para cumprir duas tarefas discretas, pois julgou inconveniente envolver sua segunda identidade política - líder do partido do governo - num ato que poderia gerar complicações para o próprio governo. Por essa razão, diz, foi escalado para imprimir cópias de uma carta de reivindicações que seriam entregues a Aldo e convidá-lo a participar de um ato que pretendiam realizar ali dentro.
Ao ser informado da arruaça, ele se dirigiu ao gabinete de Aldo, de quem ouviu a afirmação de que os integrantes do MLST seriam presos. Retornou ao Salão Verde do Congresso, onde reuniu os militantes do MLST, em companhia de parlamentares, jornalistas e funcionários da Casa em estado de choque. "Isso não estava programado. Mas naquela hora eu tinha a obrigação de assumir minha responsabilidade política", afirma.
Preso e algemado pouco depois, não viu os telejornais naquela noite. Amarrado pela algema a um banco de delegacia de Brasília, ele acusa policiais do Congresso de passarem a noite dando chutes na sua canela toda vez que cochilava - para impedir que dormisse. Só no dia seguinte pôde ter uma idéia do ocorrido, ao assistir ao telejornal Bom Dia Brasil. Ao sair da prisão, sequer tinha assistido àquela fita de vídeo, produzida por um militante do MLST, que mostra uma reunião de dezenas de ativistas debatendo os detalhes daquela ação que, no jargão interno, é definida como "ocupação pacífica de edifício público". Foi só neste momento que conseguiu inteirar-se do volumoso material que a imprensa publicou sobre o caso.
Maranhão defende a "ocupação pacífica" e lamenta que tenha ocorrido uma falha muito modesta, que chama de "um erro operacional". Sustenta que a baderna não estava nos planos. "Os militantes do MLST que participaram dela, uns 15, no máximo, terão de se explicar. E poderão ser expulsos do movimento, pois desobedeceram à nossa orientação."
Mesmo que se dê crédito a tudo o que ele diz, resta o raciocínio segundo o qual foi correto levar 700 militantes para dentro do Congresso, onde iriam cantar cirandas e hinos, numa balbúrdia que, sem a intenção de machucar ninguém nem produzir um único caco de vidro, destinava-se a paralisar os trabalhos da Casa por duas horas - façanha que, na história brasileira, até hoje só ocorreu pela ponta cortante de baionetas militares e que, em países de democracia gasosa, como a Bolívia, integra o arsenal de organizações guerrilheiras para bloquear o funcionamento de instituições e derrubar governos, não-eleitos e também eleitos. Os teóricos chamam isso de "democracia participativa".
PARALISAÇÃO 'ÚTIL'
'"Seria uma paralisação muito mais útil para o País do que esses dias em que o Congresso fica sem trabalhar", argumenta Maranhão, num discurso populista. "O Brasil iria discutir a reforma agrária, a necessidade de liberar verbas para o desenvolvimento e toda uma pauta de reivindicações."Ele também acha natural que, por razões de segurança do MLST, a maioria dos militantes, trazidos de vários pontos do País, sequer tenha sido informada do local da "ocupação".
Ele define os militantes, trazidos de dez Estados, como lavradores e camponeses "escolhidos entre os mais corajosos, mais combativos". E se uns deles achasse que o Congresso deveria ser defendido pelo povo e não ocupado?
Careca, cabelos tingidos de acaju, comportamento sempre afetuoso, a conversa de Maranhão pode ser definida como o diálogo improvável de um dinossauro simpático. Ele fala de "ocupações pacíficas" de um jeito maroto, de quem espera uma certa cumplicidade do interlocutor, como se fosse uma ação que ninguém precisa levar totalmente a sério, pois seria uma demonstração radical, barulhenta, mas inofensiva. O senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), que, como toda a elite pernambucana, conhece Maranhão e suas histórias desde o tempo da faculdade, faz uma distinção. "Ele é ingênuo, mas não bandido", costuma dizer, entre amigos. Uma das mensagens que deixaram Maranhão confortado, na prisão, foi ouvir de um velho amigo da família que só podia admirar "um homem que aos 66 anos ainda tem disposição para subir num caixote e falar de suas idéias".
A partir de motivações que tanto ajudam a formar uma consciência política como podem refletir um imenso sentimento de culpa, ele explica que se tornou revolucionário e socialista por "razões afetivas". "Na infância eu brincava com meninos pobres que cresceram perdendo os dentes e envelhecendo depressa, enquanto eu ia para faculdade e podia aproveitar a vida."
CHÁVEZ
As idéias políticas de Maranhão têm aquela capacidade de mudar e continuarem as mesmas. Com pouco mais de 20 anos, integrou as fileiras do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), organização armada que tinha em suas fileiras comunistas históricos e lendários, como Jacob Gorender, também um historiador competente; Apolônio de Carvalho, combatente da Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa, e Mário Alves, dirigente massacrado no porão militar sem revelar mais do que o próprio nome e o cargo que ocupava no partido. Aos 40, empenhou-se na fundação do PT. Aos 60, lidera uma tendência do PT chamada Brasil Socialista, publica um jornal chamado Brasil Revolucionário e sente-se em casa quando dirige uma reunião do MLST.
Ele diz que já gostou de Guevara, Fidel e Lenin, mas hoje prefere Antonio Gramsci, o comunista italiano que desprezava as idéias de ruptura revolucionária para defender a disputa da hegemonia na sociedade "numa lenta transição do capitalismo para o socialismo", diz. Outra admiração é o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que desde a primeira eleição costumava visitar o Recife, onde está enterrado o general Abreu Lima, que lutou nas tropas de Simon Bolívar. Com o tempo, os dois se conheceram e se encontram sempre que podem. Lembrando uma das últimas conversas, Maranhão fala de um encontro no qual estava ele, Chávez e João Pedro Stédile, o líder do MST. "Ele disse para nós dois que precisávamos ajudar o Lula a ganhar a eleição", lembra.

'Em invasões, o pior é a 1ª meia hora. Depois o pessoal acostuma'
Objetivo da ocupação, que segundo o dirigente dos sem-terra terminou em paz, era parar o Congresso por duas horas

Paulo Moreira Leite
BRASÍLIA
A invasão do Congresso, em junho, foi "um erro operacional", mas nessas ações o pior é só a primeira meia hora, "depois o pessoal acostuma", diz Bruno Maranhão, libertado na semana passada. A seguir, trechos da entrevista dele ao Estado:
A ação no Congresso foi um fracasso?
Não. Cometemos um erro operacional.
A idéia era parar o Congresso?
Era parar por duas horas.
Mas isso é certo?
O País ganharia mais com essa interrupção de duas horas do que nas horas em que os deputados ficam sem trabalhar.Mas isso é outra coisa...Estamos falando de democracia participativa, de cidadania popular.
Vocês também fizeram isso na ocupação do Ministério da Fazenda?
Nós respeitamos o lugar. Não invadimos a sala do ministro Palocci e deixamos todo mundo trabalhar.
Mas sempre há perturbação?
Em invasões, o problema é a primeira meia hora. Depois, o pessoal acostuma. Nós fizemos segurança na porta. Num primeiro momento, os funcionários corriam assustados. Depois, tudo terminou pacificamente. Até almocei com eles, normalmente.
O senhor faz isso porque acredita na revolução?
Já acreditei em muita coisa e já fiz muita autocrítica. Entrei para a guerrilha e depois fiz autocrítica. Existem coisas interessantes entre muitos pensadores de esquerda. O mais importante para nós, hoje, é (Antonio) Gramsci. Para ele a revolução não significava luta armada, mas a transformação das estruturas sociais, onde a produção pudesse ser partilhada e não concentrada como hoje, quando se produz um quadro de exclusão social gravíssimo. Se você me perguntar sobre a revolução brasileira, eu diria que ela é pacífica.
Por que o MLST recebe tanto dinheiro do governo?
Criamos empresas comunitárias, queremos uma alternativa ao agronegócio, dando lotes ao lavrador. Já temos dez assentamentos, com 8 mil famílias. Recebemos R$ 5,5 milhões. A maior parte vai para salário de agrônomos, tudo controlado pelos tribunais.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

CRÔNICA DO DIA - SÔ TRABAIADÔ SEU DOTÔ


É ao mesmo tempo triste e interessante a distorção cultural que vemos gradativamente tomar força no Brasil e que, com a ascensão do PT ao poder tomou proporções alarmantes. Trata-se do cultivo do paternalismo demagógico, da equivocada idéia de que “distribuição de renda” se configura em simplesmente tirar dos ricos, não importando o fato de que o cidadão laborou arduamente uma vida inteira para angariar essa condição, para dar graciosamente aos pobres, sustentando-os ao invés de ensina-los – e em alguns casos até mesmo forçá-los – a buscar seu próprio sustento.

Propaga-se pela mídia pelos órgãos governamentais, a imagem romântica daquele pobre brejeiro, humilde e inocente, que aceita as dificuldades que lhe são impostas sempre com um sorrisinho resignado no rosto. Esse personagem, contudo, está em franca extinção. O indivíduo que o substitui têm sido doutrinado, durante pelo menos duas décadas, a crer que só tem direito e nenhum dever. Criou-se, então, o sujeito astuto, que mede os passos e os atos, dotado de uma brejeirice e humildade dissimulada. Seu real anseio não é uma possibilidade de ascender financeira e socialmente pelo próprio trabalho honesto, e sim que aqueles que assim o fizeram promovam o seu sustento e o de sua família.

Deixando de lado um pouco o irritante e vazio discurso “politicamente correto”, podemos observar aqui e acolá exemplos da existência desse novo tipo de pobre, que celebra como máxima justificadora de seus atos o princípio do “sô trabaiadô seu dotô”.

Utilizemos, de início, o exemplo dos chamados “flanelinhas”. Criação típica do folclore do absurdo brasileiro, trata-se de um sujeito que cobra dinheiro para que o cidadão estacione seu veículo na via pública que ele considera de sua propriedade. De acordo com o princípio do “sô trabaiadô seu doto”, aquela via é dele, não obstante o cidadão honesto arcar com pesados tributos que, ao menos em tese, garantiriam a ele o direito de estacionar seu veículo gratuitamente ali. Caso o “aluguel” da vaga não seja pago, o indivíduo, tal qual legítimo proprietário defendendo sua posse, se dá ao direito de danificar o patrimônio do “invasor”.

Da mesma forma, o indivíduo que, devidamente munido de um dos seus muitos filhos, percorre os veículos parados nos semáforos pedindo “uma moedinha”. Experimente o leitor perguntar a um desses indivíduos porquê deveria lhe dar dinheiro e receberá a máxima “sô trabaiadô seu dotô” e isso basta. Não são todos, mas muitos tem acesso à oportunidades de trabalho formal, que, contudo, não lhes interessa, já que isso significa trabalhar arduamente, talvez por uma remuneração menor do que aquela que auferem pedindo.
Frise-se que aqui não se defende o abandono dos descamisados. O que é preciso distinguir é o necessitado do oportunista: aquele sujeito que espera que o Estado lhe de tudo sem qualquer esforço. O necessitado merece auxilio na exata proporção de suas necessidades, para que as supere e comece a produzir por si só. Ao oportunista deve-se reservar nada mais que o rigor da Lei.

O caso do MST é exemplar. Apesar de se auto intitularem Movimento dos Trabalhadores (sô trabaiadô seu dotô) Sem Terra, a única coisa que não se vê são seus integrantes trabalhando. Promovem invasões, incitam a violência, destroem propriedades que muitas vezes foram erigidas com décadas de trabalho árduo, mas de labuta propriamente não se fala.

Experimente o leitor visitar um acampamento desse movimento e o que se verificará é uma orbe de pessoas batendo papo ou reunidas em conchavos políticos que não guardam qualquer relação com a lide no campo. O Governo atual, cego e impotente diante de uma organização que pode ser intitulada como paramilitar, ao incentivar suas ações e a própria existência deste movimento, manda um recado claro para os poucos “pobres à moda antiga” que ainda existem nesse país: “Desistam de lutar por uma vida melhor. Usem a credencial sô trabaiadô seu dotô”.

Ao invés disso, uma atitude inteligente seria reerguer a classe média no país, reduzindo drasticamente os juros agióticos aqui cobrados e impondo uma carga tributária condizente com a realidade. A classe média historicamente sempre foi a engrenagem principal de qualquer sociedade. É ela que fomenta o consumo, aumentando a produção da indústria e conseqüentemente gerando empregos.

Com uma classe media encurralada por juros estratosféricos, tributos confiscatórios, e ainda ameaçada em seu patrimônio pelos detentores da credencial “sô trabaiadô seu dotô”, a indústria não produz, gerando mais desemprego e mais detentores da indigitada credencial.

Ao mesmo tempo, deve-se restabelecer a cultura de incentivo ao trabalho honesto e desestímulo das práticas parasitárias. O camelô que vende tênis falsificado em frente à uma loja de sapatos que funciona na formalidade, não deve ser tratado como trabalhador e sim como um infrator da lei, tal qual o flanelinha, o pedinte oportunista e o invasor da propriedade privada.

Não é a condescendência demagógica e irresponsável que irá extinguir a pobreza em nosso País, mas sim o incentivo à produção e ao trabalho honesto e formal.

Restabelecendo a verdade

Quando a história é vilipendiada, distorcida e usada em benefício de interesses particulares e escusos, o processo de retomada da verdade é longo e difícil, mas necessário. Um país que transforma sua história em estória está fadado ao fracasso, porque estará renunciando à experiências importantes em seu aprendizado como nação.
Na sua luta para retomar a verdade histórica acerca do movimento revolucionário de 1964 e dos anos que se seguiram a ele, o Hoje em Foco trás o importante depoimento de Heitor de Paola, militante comunista na época e vice-presidente, em 1965, do setor de intercâmbio Internacional da UNE. Segue o seu relato:
"Deixaram que os adversários escrevessema história, e como os inimigos não mandamflores, vamos aturar as mentiras e, com muitoesforço, tentar reverter os fatos verdadeiros.” (José Batista Pinheiro, Cel EB Ref)Basta olhar quem hoje está no poder político da Nação para perceber que são os derrotados militarmente em 64, que venceram uma das batalhas mais importantes: a cultural. Refugiando-se nesta área negligenciada pelos governos militares, e baseando-se na desinformação e nas teses de Gramsci, passaram a escrever grande parte da história, principalmente aquela de alcance público, acadêmico e nas escolas de todos os níveis, novelas e minisséries de TV. Tornaram-se “donos” dos significados das palavras. Temos hoje muito mais mitologia induzida do que história ocorrida. É trabalho para décadas – se houver liberdade para tanto – desfazer todos os mitos dos chamados “anos de chumbo”. Darei minha modesta contribuição, falando daquilo que vivenciei. As opções políticas na década de 60Um dos mais caros mitos é o de que militares maldosos, aliados à “burguesia” nacional “ameaçada em seus privilégios” – e subordinados às demandas maquiavélicas dos EEUU – resolveram abortar pelas armas a política conduzida por um governo legítimo e que atendia aos “anseios populares”. Em primeiro lugar nega-se o fato de que em 1959 a geopolítica da América Latina (AL) havia virado do avesso pela tomada do poder em Cuba por Castro, que logo assumiu sua condição de comunista e se aliou à URSS. Seguiu-se um banho de sangue de proporções inimagináveis – do qual é proibido falar! – e a lenta e progressiva instalação na ilha de numerosos instrutores soviéticos que adestraram tropas cubanas e formaram e exportaram guerrilheiros e terroristas, e re-estruturaram o sistema de Inteligência. Através desta “cabeça de ponte” aumentou sobremaneira a influência da URSS na AL. Os jornais noticiavam diariamente as tentativas de derrubada do governo legitimamente eleito da Venezuela, país chave pela produção petrolífera. O próximo objetivo estratégico era o Brasil, País imenso, já em fase inicial de industrialização e cujas Forças Armadas representavam um poderoso obstáculo à penetração comunista no Continente. Outro fator só mais recentemente veio à luz devido à defecção de Anatoliy Golitsyn, oficial graduado da KGB. Em 1959, durante o período de desestalinização da URSS, Alieksandr Shelepin apresentou um relatório ao Comitê Central do PCUS mostrando a necessidade de que os órgãos de segurança voltassem a suas funções originais de desinformação, exercidas pela OGPU (1922-34). A partir de então toda notícia do mundo comunista era baseada em informações emanadas e/ou alteradas pelo Departamento D (Desinformatziya) da KGB. 25 de agosto de 1961, renúncia de Jânio Quadros marca um momento importante. O Vice, João Goulart, encontrava-se na China e declarou que iria comandar o processo de “reformas sociais” tão logo assumisse. Os Ministros Militares e amplos setores civis se opuseram à posse de Jango por suas notórias ligações com a esquerda. Seu cunhado Brizola, Governador do Rio Grande do Sul reagiu, o Comandante do Terceiro Exército, Gen Machado Lopes, ficou do lado dele e o Brasil esteve à beira da guerra civil. A Força Aérea chegou a dar uns tiros no Palácio Piratini. Brizola tomou todas as rádios de Porto Alegre e obrigou as demais a entrarem em cadeia, a Cadeia da Legalidade! E lá estava eu, “comandando” uma mesa em plena rua, a uns 4o C, com uma lista de assinaturas para quem quisesse “pegar em armas pela legalidade”, atuando em conjunto com membros do extinto PCB. Com a emenda parlamentarista tudo se acalmou mas em janeiro de 63, num plebiscito nada confiável o País retorna ao Presidencialismo. Fiz parte da Juventude Trabalhista e só não entrei para os Grupos dos 11, do Brizola, sobre os quais hoje quase se nada se ouve, porque não tinha idade e, portanto, não era confiável. No início dos anos 60 o hoje santificado Betinho, junto com o Padre Vaz, elaborou o "Documento Base da Ação Popular (AP)", que previa a instalação de um governo socialista cristão no Brasil. Mas o documento em que a AP se declarava francamente a favor da instalação de uma ditadura ao estilo maoísta foi mantido secreto até para os militantes da base. Só vim a ter contato com ele através de Duarte Pacheco (um dos membros do Comando Nacional de AP) em agosto de 65, quando eu já era mais "confiável". O documento, que era obviamente o produto de uma luta interna na esquerda mundial, defendia a luta em três etapas: reivindicatória (movimentos populares, greves); política (início das guerrilhas no campo, como na China e Vietnã) e ideológica (a formação do Exército Popular de Libertação). Contrariava a teoria do foco guerrilheiro, preferida por Guevara e Debray. O MASTER (nome do MST da época), do Brizola, invadia terras no RS (como a do Banhado do Colégio, em Camaquã) e as Ligas Camponesas, de Francisco Julião, com apoio explícito do Governador Arraes, no Nordeste. A CGT, (presidida por Dante Pelacani), a UNE (José Serra) propunham abertamente um golpe com fechamento do Congresso. Armas tchecas começaram a surgir. O ano de 1963 foi uma agitação só. O movimento estudantil, do qual posso falar, estava dividido entre a Ação Popular (AP) e o PCB. Quem não viveu aqueles tempos dificilmente pode imaginar o nível de agitação que havia por aqui. O re-início das aulas em março de 64 praticamente não houve. Num encontro em Pelotas, onde eu estudava Medicina, com o último Ministro da Educação do Jango, Sambaqui, no início de março, ele nos revelou que tudo começaria com o comício marcado para o dia 13, em local proibido para manifestações públicas (em frente ao Ministério da Guerra) já em desafio aberto e simbólico à lei, seria continuado pelo levante dos sargentos do exército e da marinha – formando verdadeiros soviets – e pelos Fuzileiros Navais em peso, comandados pelo "Almirante do Povo", Aragão. Pregava-se a subversão da hierarquia e disciplina militares. Seguir-se-ia pelo já programado discurso de Jango no Automóvel Clube do Brasil. A pressão final sobre o Congresso seria em abril e maio: se não aprovasse as "reformas de base" seria fechado com pleno apoio popular. Na mesma época, participei de uma ação comandada por um agitador da Petrobrás e da SUPRA (Superintendência da Reforma Agrária), em Rio Grande, pela encampação da Refinaria de Petróleo Ipiranga o qual, num discurso na Prefeitura, declarou que a República Socialista do Brasil estava próxima. As ocorrências de março só confirmaram a conspiração acima mencionada. No comício do dia 13 Brizola pregou o fechamento do Congresso se não aprovasse as tais “Reformas de Base” (na lei ou na marra) – ninguém me contou, eu ouvi no rádio. Prestes dizia que os comunistas já estavam no Governo, só faltava tomarem o Poder. Não havia, pois, opção democrática alguma. Restava decidir se teríamos o predomínio dos comunistas ou uma re-edição do Estado Novo ou de uma ditadura peronista, chefiados por Jango. As passeatas civis estavam nas ruas exigindo fim da baderna e em apoio ao Congresso. Sugerir que se devia esperar que Jango desse o golpe para depois tirá-lo, me parece uma idéia legalista infantil, pois então teria que ser muito mais cruento. Foi, na verdade, um contragolpe cívico-militar preventivo. Participação dos EEUUOutro mito é sobre a participação americana no “golpe” de 64. Chamada de “Operação Thomas Mann” (nome do então Secretário de Estado Adjunto para a AL) não passa de uma mentira baseada em documentos forjados pelo Departamento D já citado, através da espionagem Tcheca. Quem montou a operação foi o espião Ladislav Bittman que, em 1985 revelou tudo no seu livro The KGB and Soviet Disinformation: An Insiders View, Pergamon-Brasseys, Washington, DC, 1985. Segundo suas declarações “A Operação foi projetada para criar no público latino-americano uma prevenção contra a política linha dura americana, incitar demonstrações mais intensas de sentimentos antiamericanos e rotular a CIA como notória perpetradora de intrigas antidemocráticas”. Outra fonte é o livro de Phyllis Parker Brazil and the Quiet Intervention: 1964, Univ. of Texas Press, 1979, onde fica claro que os EEUU acompanhavam a situação de perto, faziam seus lobbies e sua política com a costumeira agressividade, e tinham um plano B para o caso de o País entrar em guerra civil. Entretanto não há provas de que os Estados Unidos instigaram, planejaram, dirigiram ou participaram da execução do “golpe” de 64. Embora as revelações tenham sido tornadas públicas em 79/85, a imprensa brasileira nada publicou a respeito não permitindo que a opinião pública tomasse conhecimento da mentira que durante anos a enganou. Apenas a Revista Veja na sua edição nº 1777, de 13/11/02, publica a matéria ”O Fator Jango” de autoria de João Gabriel de Lima, onde este assunto é abordado. A luta armada e o AI 5Finalmente, o mito de que brasileiros patriotas e democratas se levantaram em armas contra o “endurecimento da ditadura” através do Ato Institucional No. 5, 12/68. Em julho de 65, na primeira tentativa de restabelecer a UNE, extinta pela Lei Suplicy, foi realizado um Congresso no Centro Politécnico em SP no qual fui eleito Vice-Presidente de Intercâmbio Internacional. Em outubro fui preso em Fortaleza, o que impediu minha ida ao Congresso da UIE na Mongólia, onde seria traçada uma estratégia de recrudescimento da violência revolucionária na AL. De 66 – ano da Conferencia Tricontinental de Havana e da Organización Latino Americana de Solidariedad (OLAS) – a 68 participei, no Sul, das intensas discussões clandestinas sobre a luta armada conduzidas por militantes da AP treinados em Pequim. Em janeiro de 68, 11 meses antes da edição do AI 5, a luta foi implementada por todas as organizações revolucionárias, menos o PCB. A AP “rachou”, eu fiquei do lado contrário à maluquice da luta armada e saí, não sem sofrer posteriormente sérias ameaças de meus “companheiros”. Logo depois, mudou o nome para Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil, o que já estava previsto no citado documento secreto. Como vários autores mais credenciados já têm se manifestado sobre isto, não vejo necessidade de mais para deixar claro que o AI 5 não passou de uma reação ao incremento das atividades revolucionárias."