terça-feira, 19 de outubro de 2010

MATANDO A COBRA E MOSTRANDO O PAU


Confesso que nos últimos dias tenho me sentido enojado com o caso dos “panfletos apócrifos que fazem campanha contra o PT e sua candidata”. O que me causa náuseas é justamente esta “definição” que os veículos de imprensa – ressalvadas algumas poucas e nobres exceções – têm dado a um panfleto produzido pela Regional Sul da CNBB.


É nojenta a manipulação da informação. Um periódico impresso chegou a divulgar a informação de que o documento teria sido elaborado pela “ultra direita” da igreja católica. No Brasil de hoje, por mais patético que seja, divulgar a verdade dos fatos é coisa de ultra direitista. Progressismo é tapear o povo induzindo-o a comprar gato por lebre. Nada espantoso em uma nação em que, mais importante é o 13º da esmola oficial do que ética e princípios.

Em uma democracia séria, os periódicos que têm divulgado a versão mentirosa já estariam às turras com centenas de processos judiciais por conta da publicidade enganosa – prometem informação e vendem enganação.

Também se mostra asquerosa a postura de algumas lideranças da Igreja Católica que, ao invés de apoiarem uma providência que se restringe a relatar fatos, se resumem a tirar o corpo fora, relegando o rebanho à sanha dos chacais. Como pastores de almas, esquecem-se que sua função não se resume a indicar o caminho, mas também e principalmente se prostrar entre o rebanho e seus predadores. Alguns membros da CNBB, ao que parece, preferem conchavar com a matilha e desfrutar com ela de um churrasquinho de ovelha, regado a samba e cerveja.

Esse blog tem poucos leitores mas compromisso com a verdade. Esse que vos escreve, “mata a cobra e mostra o pau”. Os poucos que o lêem terão a oportunidade de verificar – in loco – como têm sido ludibriados pela grande imprensa no que diz respeito aos tais panfletos.

Comecemos pela questão da autoria: Ao contrário do que parte da imprensa tem mencionado, ele não é apócrifo. Assinam o texto Dom Nelson Westrupp – Presidente do CONSER-SUL 1; Dom Benedito Beni dos Santos – Vice Presidente do CONSER-SUL 1; e Dom Airton José dos Santos – Secretário Geral do CONSER-SUL 1. Quando digo “assinam” remeto ao significado literal da palavra: Suas assinaturas estão escaneadas no documento.

Passemos agora ao conteúdo:

O panfleto enumera uma série de ações do Partido dos Trabalhadores em prol da descriminação do aborto. Este escrivinhador se deu ao trabalho de buscar provas documentais de TODAS as ações descritas no tal panfleto e, além de transcrever os documentos a que ele se refere, as indicará à vocês, leitores, os meios para que possam obtê-los na internet. Adiante:


APELO A TODOS OS BRASILEIROS E BRASILEIRAS

Nós, participantes do 2º Encontro das Comissões Diocesanas em Defesa da Vida (CDDVs), organizado pela Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB e realizado em S. André no dia 03 de julho de 2010,

  • considerando que, em abril de 2005, no IIº Relatório do Brasil sobre o Tratado de Direitos Civis e Políticos, apresentado ao Comitê de Direitos Humanos da ONU (nº 45) o atual governo comprometeu-se a legalizar o aborto”...

O II Relatório Brasil sobre o Tratado de Direitos Civis e Políticos pode ser baixado no link http://www.rolim.com.br/2002/_pdfs/2RELATORIOBRASILEIRO1966.pdf

No item 45 deste documento pode-se ler:

45. A legislação brasileira ainda não se adequou plenamente às

recomendações do Plano de Ação da Conferência Mundial sobre a Mulher,

realizada em Beijing, em 1995 e que considerou o aborto um tema de

saúde pública. O governo brasileiro espera que o Congresso Nacional

possa apreciar um dos projetos em tramitação que pretendem corrigir a

abordagem repressiva e, sabidamente, ineficiente com a qual o aborto

segue sendo tratado”.

- considerando que, em agosto de 2005, o atual governo entregou ao Comitê da ONU para a Eliminação de todas as Formas de Descriminalização contra a Mulher (CEDAW) documento no qual reconhece o aborto como Direito Humano da Mulher”...

O documento entregue pelo governo Lula ao CEDAW da ONU pode ser baixado no link http://www.agende.org.br/home/Cedaw_ContraInforme_13julho_se.pdf

No item 92 do referido documento, está previsto que:

92. A Recomendação Geral nº. 24 do Comitê CEDAW estabelece que negligenciar o acesso a serviços de saúde que somente as mulheres necessitam é uma forma de discriminação contra as mulheres: “Parágrafo 14: Outras barreiras ao acesso das mulheres a uma assistência de saúde apropriada incluem as leis que criminalizam procedimentos médicos que somente as mulheres necessitam e que podem as mulheres que se submetem a tais procedimentos”.44 A existência de legislação punitiva coloca as mulheres em risco de morte materna por aborto inseguro no Brasil. O Comitê CEDAW, ao examinar o Relatório Nacional apresentado pelo Brasil em sua 29ª sessão (30 de junho a 18 de julho de 2003), recomendou ao Estado Brasileiro, em suas Observações Finais (parágrafo 52), que: “profundas medidas sejam tomadas para garantir o efetivo acesso das mulheres a serviços e informações com o cuidado da saúde, particularmente em relação à saúde sexual e reprodutiva, incluindo mulheres jovens, mulheres de grupos em desvantagem e mulheres rurais. Tais medidas são essenciais para reduzir a mortalidade materna e para prevenir o recurso ao aborto e proteger as mulheres de seus efeitos negativos à saúde (...).”.45


- considerando que, em setembro de 2005, através da Secretaria Especial de Política das Mulheres, o atual governo apresentou ao Congresso um substitutivo do PL 1135/91, como resultado do trabalho da Comissão Tripartite, no qual é proposta a descriminalização do aborto até o nono mês de gravidez e por qualquer motivo, pois com a eliminação de todos os artigos do Código Penal, que o criminalizam, o aborto, em todos os casos, deixaria de ser crime”...

O PL 1135/91 pode ser conferido no site da Câmara dos deputados. Para facilitar, o link que remete diretamente ao texto é http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=16299

O resumo do projeto, tal qual disposto no site informa que:

"Proposição: PL-1135/1991

Autor: Eduardo Jorge - PT/SP e co-autores.

Data de Apresentação: 28/05/1991

Apreciação: Proposição Sujeita à Apreciação do Plenário

Regime de tramitação: Ordinária

Situação: MESA: Aguardando Deliberação de Recurso.

Ementa: Suprime o art. 124 do Código Penal Brasileiro

Explicação da Ementa: Suprime o artigo que caracteriza crime o aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento; (liberalização do aborto); altera o Decreto-lei nº 2.848, de 1940. Co-autora: deputada Sandra Starling - Pt/Mg.

Indexação: Alteração, Código Penal, descriminalização, aborto, interrupção, gravidez.


- considerando que, em setembro de 2006, no plano de governo do 2º mandato do atual Presidente, ele reafirma, embora com linguagem velada, o compromisso de legalizar o aborto”...

O programa apresentado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 pode ser baixado no próprio site do PT, no link

http://www.pt.org.br/portalpt/dados/bancoimg/c091003193431plano_governo.pdf

Na página 30 do referido documento, lê-se:

Formular propostas de mudanças na legislação, para fiscalizar o cumprimento das leis que assegurem e ampliem os direitos da mulher”.


- considerando que, em setembro de 2007, no seu IIIº Congreso, o PT assumiu a descriminalização do aborto e o atendimento de todos os casos no serviço público como programa de partido, sendo o primeiro partido no Brasil a assumir este programa”...

As resoluções do 3o Congresso do PT, realizado em 2007, podem ser baixadas no próprio site do partido, no link

http://www.pt.org.br/portalpt/images/stories/arquivos/resolucoes3congresso.pdf

Na página 82 do referido documento, pode-se ler:

defesa da autodeterminação das mulheres, da discriminalização do aborto

e regulamentação do atendimento à todos os casos no serviço público evitando

assim a gravidez não desejada e a morte de centenas de mulheres, na sua maioria

pobres e negras, em decorrência do aborto clandestino e da falta de responsabilidade

do Estado no atendimento adequado às mulheres que assim optarem;”


considerando que, em setembro de 2009, o PT puniu os dois deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso por serem contrários à legalização do aborto”...

A decisão do processo ético-disciplinar que puniu os dois deputados também pode ser encontrada no site do PT, no link

http://www.pt.org.br/portalpt/documentos/dn-suspende-direitos-partidarios-de-luiz-bassuma-e-henrique-afonso-254.html

Transcrevo em sua totalidade ambas as decisões, para que não reste dúvida:

Processo ético-disciplinar contra o deputado federal Luiz Bassuma (PT-BA):

Considerando representação feita pela secretária nacional de Mulheres do PT, Laisy Morière, contra o deputado federal Luiz Bassuma (PT-BA), e o relatório da Comissão de Ética tratando da infração disciplinar denunciada;

Considerando que o Estatuto do PT garante a todo e qualquer filiado o direito de manifestação pública sobre questões doutrinárias e políticas, sendo, portando, admissível que um militante petista se pronuncie contrariamente a uma posição partidária, desde que os faça respeitosamente e dentro dos limites éticos cabíveis;

Considerando, contudo, que o comportamento do deputado acusado não se limitou ao mero exercício do direito à liberdade de expressão, mas assumiu uma dimensão militante e agressiva contra diretriz definida em resolução do 3º Congresso Nacional do PT;

Considerando ainda que o deputado acusado em nenhum momento solicitou a discussão, nas instâncias competentes, a respeito da resolução do 3º Congresso sobre descriminalização do aborto, nem invocou o direito assegurado no Artigo 13, inciso XV do Estatuto partidário;

Considerando, finalmente, que o deputado acusado teve atitudes desrespeitosas e ofensivas à ética partidária em relação a militantes e parlamentares petistas que defendem a descriminalização do aborto, nos termos da resolução aprovada no 3º Congresso;

O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, com base nos artigos 13, incisos XIV e XV; 14, incisos III e IV; 209, incisos I, II e VIII; e 210, parágrafo 4º do Estatuto partidário;

Resolve:

I. Aplicar a pena da suspensão das atividades partidárias pelo período de 1 (hum) ano;

II. Nos termos do Artigo 210, parágrafo 4º do Estatuto do PT, indicar como direitos e funções partidárias cujo exercício serão atingidos:

a) Suspensão do direito de participar na elaboração e na aplicação da política partidária, de votar e de ser votado em quaisquer instâncias partidárias, inclusive no âmbito da Bancada Federal;

b)
Determinação à Bancada Federal que proceda, de imediato, a substituição do deputado Luiz Bassuma na Comissão de Seguridade Social e da Família na Câmara dos Deputados.

III.
Recomendar ao deputado acusado que retire os projetos de Lei de sua autoria que contrariam a resolução do 3º Congresso”.

“Processo ético-disciplinar contra o deputado federal Henrique Afonso (PT-AC):

Considerando representação feita pela secretária nacional de Mulheres do PT, Laisy Morière, contra o deputado federal Henrique Afonso (PT-AC), e o relatório da Comissão de Ética tratando da infração disciplinar denunciada;

Considerando que o Estatuto do PT garante a todo e qualquer filiado o direito de manifestação pública sobre questões doutrinárias e políticas, sendo, portando, admissível que um militante petista se pronuncie contrariamente a uma posição partidária, desde que os faça respeitosamente e dentro dos limites éticos cabíveis;

Considerando, contudo, que o comportamento do deputado acusado não se limitou ao mero exercício do direito à liberdade de expressão, vindo a militar ostensivamente contra resolução do 3º Congresso Nacional do PT sobre a descriminalização do aborto; nunca solicitando, na forma estatutária cabível, o exercício do direito assegurado pelo Artigo 13, inciso XV do Estatuto do PT;

O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, com base nos artigos 13, incisos XIV e XV; 14, incisos III e IV; 209, incisos I, II e VIII; e 210, parágrafo 4º do Estatuto partidário;

Resolve:

I.
Aplicar a pena da suspensão das atividades partidárias pelo período de 90 (noventa) dias;

II. Nos termos do Artigo 210, parágrafo 4º do Estatuto do PT, indicar como direitos e funções partidárias cujo exercício serão atingidos:

a) Suspensão do direito de participar na elaboração e na aplicação da política partidária, de votar e de ser votado em quaisquer instâncias partidárias, inclusive no âmbito da Bancada Federal;

b) Determinação à Bancada Federal que o deputado Henrique Afonso não seja reconduzido à Comissão de Seguridade Social e da Família na Câmara dos Deputados.”


- considerando como, com todas estas decisões a favor do aborto, o PT e o atual governo tornaram-se ativos colaboradores do Imperialismo Demográfico que está sendo imposto em nível mundial por Fundações Internacionais, as quais, sob o falacioso pretexto da defesa dos direitos reprodutivos e sexuais da mulher, e usando o falso rótulo de “aborto - problema de saúde pública”, estão implantando o controle demográfico mundial como moderna estratégia do capitalismo internacional,

  • considerando que, em fevereiro de 2010, o IVº Congresso Nacional do PT manifestou apoio incondicional ao 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3), decreto nª 7.037/09 de 21 de dezembro de 2009, assinado pelo atual Presidente e pela ministra da Casa Civil, no qual se reafirmou a descriminalização do aborto, dando assim continuidade e levando às últimas consequências esta política antinatalista de controle populacional, desumana, antisocial e contrária ao verdadeiro progresso do nosso País”...

O PNDH III pode ser baixado no site do Ministério da Justiça, no link

http://portal.mj.gov.br/sedh/pndh3/pndh3.pdf

A diretriz 9, do Objetivo Estratégico III, ação g, prevê:

Considerar o aborto como tema de saúde pública, com garantia do acesso aos serviços de saúde”

Já as resoluções do 4o Congresso do PT, estão disponíveis em um dos blogs ligados ao partido, no link http://pagina13.org.br/?p=496

A resolução tomada em relação ao PNDH III diz:

1. O PNDH3 é fruto de um extenso processo democrático de participação social na deliberação de políticas que refletem uma nova relação entre sociedade e Estado.

2. Em nosso país um grandioso processo de formulação de políticas públicas se fez e se faz por meio de conferências nacionais. A conferência Nacional de Direitos Humanos foi realizada em dezembro de 2008, antecedida de conferências estaduais e convocada pelo Presidente da República para atualizar o PNDH2.

3. Por ser de tema transversal, o PNDH3 incorpora temas de conferências nacionais de mulheres, igualdade racial, LGBTT, assistência social, criança e adolescente, idosos, pessoas com deficiência, educação, saúde, desenvolvimento agrário e outras.

4. O Brasil não aceita a dissociação entre os direitos democráticos e os direitos igualitários (econômicos, sociais e culturais). Direitos Humanos são indivisíveis e interdependes. O Partido dos Trabalhadores deu os primeiros passos, assumiu a bandeira dos direitos humanos e incorporou milhares de defensores. Direitos Humanos que se confundem com a própria democracia, devem ser protegidos e praticados por todos, independente de partidos e posições ideológicas.

5. O 4º. Congresso expressa seu apoio incondicional ao PNDH3, inclusive a proposição da comissão de verdade.

  1. O PNDH3 foi assinado pelo Presidente, endossado por 21 Ministros e redigido por mais de 15 mil pessoas. Consolida os avanços do PNDH1 (1996), PNDH2 (2002), e incorpora os novos direitos participativos, ambientais, a diferença, a verdade e a memória.

- considerando que este mesmo Congresso aclamou a própria ministra da Casa Civil como candidata oficial do Partido dos Trabalhadores para a Presidência da República,

  • considerando enfim que, em junho de 2010, para impedir a investigação das origens do financiamento por parte de organizações internacionais para a legalização e a promoção do aborto no Brasil, o PT e as lideranças partidárias da base aliada boicotaram a criação da CPI do aborto que investigaria o assunto”...

Notícia sobre o boicote à CPI do Aborto pode ser encontrada no site da Câmara dos Deputados, no link http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/DIREITOS-HUMANOS/129842-MULHERES-PEDEM-QUE-CPI-DO-ABORTO-NAO-SEJA-INSTALADA.html

Transcrevo a noticia:

Mulheres pedem que CPI do Aborto não seja instalada



Integrantes da bancada feminina da Câmara e de movimentos sociais pediram nesta quinta-feira, ao presidente Arlindo Chinaglia, que a comissão parlamentar de inquérito sobre o aborto clandestino no Brasil não seja instalada.

Para a deputada Maria do Rosário (PT-RS), incriminar as mulheres que precisam recorrer ao aborto não vai resolver o problema. "Esse tema não deve ser tratado como um caso de CPI, e sim de saúde. Nenhuma atitude policial contra as mulheres resolve essa questão, especialmente no caso daquelas que estão perdendo a vida e que, no desespero, encontram uma circunstância para a sua vida. Chega apenas de julgar e de não estender a mão", argumentou.

Já um dos autores do pedido de criação da CPI, deputado Miguel Martini (PHS-MG), rebate o argumento de que a investigação vai prejudicar as mulheres. "É o contrário. Estamos protegendo as mulheres. Qualquer aborto, mesmo com o maior cuidado, provoca um trauma irreversível, nos aspectos físico e psíquico. Portanto, quem praticar tem de ser punido. A vida é um bem supremo que só Deus dá e pode tirar", argumentou”.

Por fim, a recomendação:

RECOMENDAMOS encarecidamente a todos os cidadãos e cidadãs brasileiros e brasileiras, em consonância com o art. 5º da Constituição Federal, que defende a inviolabilidade da vida humana e, conforme o Pacto de S. José da Costa Rica, desde a concepção, independentemente de sua convicções ideológicas ou religiosas, que, nas próximas eleições, deem seu voto somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalizacão do aborto”.

Verifica-se, portanto, que o que a Regional Sul da CNBB fez, com a emissão dos panfletos, foi orientar seus fieis no sentido de que, entre os candidatos à presidência da República, há um cujo partido, durante nada menos do que quase uma década, tem agido incessantemente de forma a buscar a descriminação do aborto no Brasil.

Tendo em vista que é princípio da Igreja Católica repudiar o aborto, os signatários do documento estavam – mais do que exercendo um direito – cumprindo uma obrigação perante os fiéis, no sentido de orientá-los no caminho da fé cristã. Nenhum fiel é obrigado a cumprir o que vai dito no panfleto, que se identifica apenas como uma orientação àqueles que adotam a fé católica – o que também não é obrigatória – esclarecendo o posicionamento de um determinado candidato.

O que deveria preocupar e, ao contrário, é tratado como algo absolutamente normal, é que este documento, que simplesmente narra fatos históricos e absolutamente comprováveis, como observado acima, foi objeto de apreensão pelo aparato policial do Estado brasileiro.

Diante disso, saltam aos olhos duas conclusões irrefutáveis:

1 – É proibido no Brasil, durante o período eleitoral, esclarecer o povo brasileiro acerca do posicionamento dos candidatos e partidos que concorrem ao cargo de maior importância da nação. O povo deve ser mantido na ignorância acerca daquilo que pensa ou defende o partido e a candidata que se lança à empreitada de dirigir o país;

2 – Vivemos na pior das ditaduras: A ditadura dos bobos-alegres, em que um partido trata como criminosa a informação que lhe desagrade – ainda que seja verdadeira – e o povo se dirige, rindo e sambando equinamente, ao cadafalso.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

SE O BRASIL DESCOBRISSE O BRASIL - Capítulo II


Se o Brasil descobrisse o Brasil – Capítulo II


Exclusivo – Antropólogo explica o polêmico ato ecumênico de além mar



A última semana foi recheada de petardos entre governo e oposição em terras brasileiras, depois que veio a público a notícia de que o ato ecumênico previsto para ser celebrado nas novas terras descobertas pelo Brasil em além mar, se converteu em uma celebração aos moldes dos nativos daquelas paragens, com direito até mesmo a canibalismo.


Segundo o relatório de viagem que vazou para a imprensa, no dia 24 de abril estava prevista a realização de um ato ecumênico com a presença de um padre, um pastor e uma mãe-de-santo. A cerimônia visava celebrar o descobrimento e proporcionar o primeiro contato mais próximo com os nativos.


Na data dos fatos, contudo, por decisão do antropólogo da missão, professor Apanágio Melo, decidiu-se por adotar uma política de maior aproximação cultural com os indígenas da tribo tupinambás. Foi travado, então, contato com o cacique e o curandeiro da tribo e, como “demonstração de boa-fé” atribuiu-se a eles a condução da cerimônia religiosa, segundo sua própria cultura.


Após dançarem em volta de um totem completamente nus, os descobridores foram induzidos a provar uma beberragem típica, produzida com uma raiz típica da região, que os indígenas chamam de “mandioca”, misturada à saliva das mulheres da tribo.


Contudo, o ponto mais controverso da cerimônia se deu quando o cacique tupinambá determinou que se elegesse um membro da missão para servir de “alimento ao povo”. Segundo consta do relatório oficial, o sr. Genaro de Oliveira Silva, um grumete de 66 anos foi selecionado. O critério utilizado foi o da idade avançada do marinheiro, que foi amarrado, asfixiado, cozido em um grande caldeirão de barro e servido como iguaria aos presentes.


O relatório provocou a ira de diversas entidades brasileiras, levando os partidos de oposição, juntamente com a CNBB e a OAB a divulgarem Manifesto em repúdio aos métodos adotados pelos descobridores, e solidariedade à Dona Araci da Silva, viúva do grumete Genaro.


De outro lado, PT, UNE, CUT, MST e um grupo de antropólogos, sociólogos e filósofos da Universidade de São Paulo se reuniram em manifestação pública protestando “contra o imperialismo e a mídia golpista”. Segundo os manifestantes, setores conservadores da sociedade brasileira buscam, com o auxilio de órgãos da mídia, forçar uma política de dominação aos habitantes da agora chamada Terra Brasilis, o que não seria a missão dos descobridores.


Uma das lideranças intelectuais deste movimento é o professor e filósofo Iberê Costa. Mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo, Doutor em Sociologia e Antropologia pela Universidade de Brasília, o professor Iberê concedeu uma entrevista a este periódico:


HOJE EM FOCO – Professor, o Sr. tem se posicionado em defesa do ato realizado pelos exploradores em Terra Brasilis. Porque?

Veja bem meu caro, tudo parte de uma questão de princípios. O governo brasileiro tem uma visão progressista da exploração marítima, no sentido de não utilizarmos da nossa tecnologia, que permite desbravar os sete mares, em um contexto de dominação do homem pelo homem. Não podemos querer impor a nossa cultura a outros povos. O sentido das explorações navais brasileiras não é o de subjugar, mas sim o de integrar. Esse princípio de não discriminação foi o principal motivo, inclusive, para que se alterasse o nome inicialmente dado à terra descoberta de Terra Preta para Terra Brasilis. O primeiro nome soava muito depreciativo, discriminatório mesmo com nossos irmãos afrodescendentes.


HOJE EM FOCO – Mas algumas peculiaridades culturais destes povos, não deveriam ser contornadas pelos exploradores?

Certamente. Alguns costumes dos Tupinambás são realmente diferentes dos nossos e em certo contexto, podem ser considerados cruéis e avessos à nossa tradição democrática. Por exemplo: Segundo nos dá conta o professor Apanágio, na cultura deles existe um dado que é de uma crueldade ímpar, ao se constatar que entre eles somente tem direito a comer aquele que trabalha, ou seja, o indivíduo, de uma forma cruel, absurda mesmo, depende apenas de sí próprio para sobreviver. Não há um aparato social que o proteja se ele não puder ou não quiser trabalhar. Outro dado peculiar é que, entre os nativos, não há uma tradição democrática como há entre nós. Entre eles, somente o guerreiro mais forte, ou o ancião mais sábio pode pleitear a liderança da tribo, quando todos sabemos que isso é um preconceito que não permite que eles desfrutem de uma amplitude democrática como nós.


HOJE EM FOCO – E no entendimento do senhor, devemos nos integrar à essas peculiaridades?

Não necessariamente. Acreditamos que podemos transferir a esses nativos, uma consciência social e de classe que permita que eles mesmos percebam que posicionamentos individualistas, elitistas como esses que eu narrei não contribuem para a sua evolução enquanto nação indígena.


HOJE EM FOCO – Então, se a ideia é conscientizá-los, porque aderir a rituais tão atrasados como o canibalismo?

Veja bem, no caso de seus rituais religiosos, acreditamos que não é algo que nos diz respeito. Não podemos hierarquizar as manifestações culturais da forma imperialista que alguns setores conservadores da sociedade pretendem. Se para a sociedade brasileira, devorar outro ser-humano pode parecer grotesco, para eles também pode parece terrível que sacrifiquemos um peru para celebrar o Natal. São manifestações culturais que se equivalem.


HOJE EM FOCO – Mas para que participar de algo que para a sociedade brasileira é anti-natural?

O que deveríamos fazer? Bancar os imperialistas estadunidenses e dizimar toda a população indígena? A realidade é que quem protesta contra a participação brasileira no ritual religioso tupinambá, na realidade, defende que massacremos todos eles, o que é contrário à natureza humanista do povo brasileiro.

HOJE EM FOCO – O que o senhor pode dizer para consolar a viúva do grumete Genaro?

Posso dizer à dona Araci que ela deve ter a tranquilidade de saber que seu falecido esposo foi escolhido de uma forma justa, criteriosa e democrática. Não ocorreu qualquer tipo de favorecimento ou direcionamento na escolha.


HOJE EM FOCO – Segundo informado, o critério usado para a escolha levou em conta a idade do grumete. O professor Apanágio, contudo, tem 68 anos – dois a mais do que o sr. Genaro. Porque ele não participou do sorteio?

Ora, o professor Apanágio é uma sumidade em sua área. Como poderia ele ser levado ao sacrifício e privar toda a expedição de seus conhecimentos? Levantar e baixar âncoras, içar velas e limpar convés – o serviço de um grumete – qualquer um pode fazer. O direcionamento sociológico e antropológico do professor Apanágio, no contexto da missão, é insubstituível.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

SE O BRASIL DESCOBRISSE O BRASIL - Capítulo I


Mini-série em 8 capítulos.



Capítulo I


Além Mar, 21 de abril de 2010 –

FLOTILHA DE DESCOBRIDORES ENCONTRA TERRA


Depois de enormes percalços em meio a um escândalo de superfaturamento, as Naus brasileiras encontraram terras no além-mar. Das 12 embarcações que partiram do porto de Santos, apenas quatro chegaram ao destino. As oito restantes se desfizeram no meio da viagem. Apesar da boa notícia, a oposição denuncia que o grande número de embarcações dissolvidas em alto mar é prova cabal de que as denúncias feitas por um ex-funcionário do estaleiro que as construiu, de que as mesmas foram fabricadas com lâminas de compensado, ao invés de madeira sólida, são procedentes. “Isso é um factóide criado pela oposição por conta da eleição”, afirmou o Ministro das Comunicações. O cientista marinho José da Silva concorda com a posição do Governo. “Nos últimos anos, temos observado um crescimento excessivo da acidez da água marinha, o que pode ter causado a dissolução das embarcações”. Apesar disso, o fato é que esta é a primeira vez na história da navegação mundial em que se registra a ocorrência do desmonte simultâneo de 8 naus, conduzindo cerca de cem pessoas cada uma, em pleno mar aberto.

Em meio à polêmica, o Presidente Lula decretou feriado nacional em comemoração à descoberta “Nunca antes na história deste país os brasileiros foram tão longe. Estamos prestes a nos tornarmos a maior nação do mundo em extensão territorial”. O Presidente aproveitou para alfinetar seus opositores: “Quando FHC comandou esse país, ele se contentava em ser grande na América Latina. Precisou um torneiro mecânico governar para que levássemos nossa cultura e nossa mensagem além-mar”.

EXPEDIÇÃO

O enviado especial deste jornal à expedição nos relata que as terras descobertas são vastas e cheias de matas verdejantes, com espécimes vegetais e animais nunca antes encontradas em lugar algum. A comissão de meio ambiente que integra a missão já baixou a primeira norma da nova terra, proibindo desmatamento. Foi determinada uma pequena área onde os colonos – cerca de 400 – desembarcarão e instalarão seu primeiro assentamento. A região descoberta está sendo chamada de Terra Negra por conta da cor escura de seu solo.

NATIVOS

Foi verificada a existência de um povo nativo na região. Segundo relato de nosso enviado, essas pessoas possuem a pele mais avermelhada e cultivam o costume de andarem completamente nuas. Ainda não foi travado nenhum contato com a população nativa, o que está programado para acontecer em dois dias, quando será celebrado um culto ecumênico – com um Padre, um Pastor e uma Mãe-de-Santo - em homenagem ao descobrimento.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sem choro nem vela


Quem presta um pouquinho de atenção na realidade política brasileira, já pode antever o discurso da nata ignara daqui um ano. Confirmado nas urnas o que as pesquisas mostram, a ladainha de sempre será ouvida: “Político é tudo igual, promete uma coisa e entrega outra”; “O PT traiu suas origens”; “Dilma não presta”; “os Deputados não prestam”; “os Senadores não prestam”, e o mesmo discurso “coitadista” de sempre.

O brasileiro acostumou-se com o papel de eterno cidadão de boa-fé que – coitadinho – é constantemente enganado, explorado, espoliado por políticos de fala mansa que “só aparecem de quatro em quatro anos para pedir voto”.

Nesta eleição, feliz ou infelizmente, o discurso vai finalmente soar como o que realmente é: Muxoxo de um povo que tem se aprofundado cada vez mais na venalidade e que desde a chamada redemocratização, insiste em brincar com o perigo.

Não soarão hipócritas os brados indignados de repórteres e jornalistas em geral, diante da imposição de censura, fechamento de órgãos de imprensa e perseguição destes profissionais? Ora, o PT vem, há oito anos anunciando ao som de trombetas qual o destino pretende dar à este setor da sociedade. Anunciou em seu IV congresso, organizou a tal CONFECOM, de onde saiu um sem número de propostas neste sentido, às incluiu no PNDH III e até mesmo no programa de governo de sua candidata à presidência. Ainda assim, a chamada mídia manteve-se inerte e cheia de dedos. Soaria muito “tucano” chamar a coisa pelo nome que ela tem: Censura. No momento em que jornalistas começarem a ir em cana por conta de seu ofício, será o primeiro caso na história do mundo em que burrice dá cadeia.

Não será patético ouvir de empresários que hoje cobrem petistas de reverências e salamaleques, a acusação de incompetência, no momento em que a conta dos gastos absurdos com a máquina pública começarem a cobrar seu preço sob a forma de quebradeira geral? Não é de hoje que economistas mundo afora advertem que o Brasil tem elevado seus gastos correntes de forma irresponsável, chocando um ovo de serpente que irá cobrar seu preço.

A auto-proclamada oposição, que de oposição não tem nada, poderá assistir de camarote – talvez com direito a duas refeições diárias e uma hora de banho de sol (como bem sabe o Sr. Penã Eclusa da Venezuela) – que a “estratégia” desenvolvida em 2005, no ápice do escândalo do mensalão, de “sangrar” Lula até as eleições, talvez não tenha sido tão brilhante. Também não poderão se dizer enganados. Se forem honestos, se recolherão à sua insignificância intelectual.

Também não poderão reclamar os militares. Seus reclamos, na realidade, já soam patéticos hoje. Em vinte e cinco anos à frente do governo, se jactam de terem construído estradas, pontes, hidroelétricas, de mandarem “prender e arrebentar”, de terem “vencido o comunismo”, etc, quando na verdade bastava um único e singelo investimento : Educação.

Ao invés disso, sob o pretexto de barrar a subversão, criaram o campo fértil sem o qual o tal “comunismo” não se cria: Ignorância. Tivessem investido no aprimoramento intelectual do povo – esse que certa elite nacional despreza como meros outorgantes das demandas nacionais – e faltaria ao PT a massa de manobra da qual se utilizam para impor suas demandas e seus candidatos. Com medo do Brizola – pobre Brizola – nos deram Lula. Agradeçamos ao Golbery.

As forças armadas têm conhecimento, desde sempre, da existência do Foro de São Paulo, de seus objetivos e da íntima ligação entre seus membros (leia-se FARCS – PT). Não moveram uma palha para fazer cessar o vilipêndio da nação brasileira, cuspindo no juramento que proclamaram ante o pendão nacional.

Quando brasileiros foram expulsos do Estado brasileiro de Roraima por conta da malfadada criação da reserva Raposa Serra do Sol, um único militar ousou se levantar contra isso: O General Augusto Heleno. Ao que se saiba, nenhuma voz se levantou em coro aos seus brados. Tal qual funcionários públicos fardados, preferiram garantir seus vencimentos e aposentadorias. Do que reclamarão daqui um ano, sem também que se sinta o cheiro nauseabundo da hipocrisia?

Então fica assim: teremos uma terrorista que se orgulha de seus feitos terroristas na presidência; como Senadores por São Paulo, uma socialite que, diante de uma calamidade como foi o “caos aéreo” sugere ao povo que “relaxe e goze” e um pagodeiro que bate em mulher; e como Deputado Federal, um palhaço assumido que faz questão de dizer que não sabe sequer o que vai fazer se eleito, além de conquistar outra vaga para um mensaleiro.

Diante deste cenário, o brasileiro está conquistando o direito de usufruir das consequências de suas escolhas nefastas, sem choro nem vela.

segunda-feira, 9 de março de 2009

As Fraquezas do Forte




A Fortaleza de Santo Amaro é considerada o conjunto arquitetônico-militar mais importante do Estado de São Paulo. Erguida em 1584 durante o reinado de Felipe II da Espanha e I de Portugal (na época, Portugal e Espanha formavam um só reino, comandado por um espanhol), foi responsável pela defesa territorial do Brasil em diversas oportunidades – a primeira, contra uma investida do corsário inglês Edward Fenton, e a última em 1893, quando seus canhões repeliram a revolta da armada – hoje jaz como amontoado de pedras, como se tivesse sido construída ontem.

É certo que em 1993 o forte, até então completamente abandonado, passou por um processo de restauração que lhe devolveu parte da imponência arquitetônica do passado, mas, como pudemos constatar no último fim de semana, isso está longe de ser o bastante.

No último sábado, recebemos em nossa casa a visita de familiares que residem no interior de São Paulo – um casal e duas crianças com 2 e 4 anos. Amantes, como nós, de pontos relacionados à história de nosso país, a idéia de visitar um forte militar construído quando o Brasil contava com apenas oitenta e quatro anos de “idade” parecia ser um programa maravilhoso. Havíamos previamente pesquisado todas as informações a respeito do forte – horário de visitação, preço e como chegar ao local. Nos dirigimos então à ponte dos práticos, na Avenida Saldanha da Gama. Lá, o primeiro sinal de abandono: contrastando com as ofertas de passeio de escuna pela orla, não havia sequer um pedaço de cartolina informando qual barco se dirigia à fortaleza.

Depois de perguntarmos a respeito para duas ou três pessoas, alguém nos informou que o percurso era feito pelos barquinhos que iam à praia do Góes. Localizamos o “tal” barquinho, pagamos a passagem de R$ 1,80 por pessoa e iniciamos o trajeto. Ao chegarmos ao local, o próprio condutor do barco nos perguntou, descrente, se iríamos mesmo ficar por ali. Nosso estranhamento à pergunta durou apenas os poucos segundos necessários para desembarcarmos e nos depararmos com um grupo de indivíduos sentados no píer fumando maconha – um deles, inclusive, não tinha mais do que oito anos de idade.

Novamente, não havia sequer um pedaço de guardanapo indicando onde era a entrada da Fortaleza. Descobrimos na base do “espírito desbravador”. Ao ultrapassarmos o pequeno portão de ferro, dois supostos funcionários sentados estavam e sentados continuaram, como se fôssemos um grupo de fantasmas de habitantes do forte.

Visitamos por conta própria a fortaleza. Admiramos a vista, fotografamos os dois canhões que ainda restam ali, as vigias, lemos os informativos históricos enquadrados na parte interna, descobrimos, sempre sozinhos, entalhes na muralha externa que, imaginamos, terem servido para alinhar os canhões de outrora, enfim, nos confraternizamos com um passado suposto, já que ninguém havia para nos informar o que era imaginação e o que fora realidade.

Após passearmos por cerca de vinte minutos, os dois indivíduos sentados, que já começávamos a suspeitar serem estátuas decorativas, deram sinal de vida e nos solicitaram, gentilmente, que assinássemos o livro de visitas. Assim fizemos e nos dirigimos ao píer para aguardar o transporte de volta.

Logo na saída fomos saudados por uma simpática ratazana, que saiu de entre as pedras e entrou correndo no forte. O Gran finalle, contudo, se deu com a aproximação de um dos indivíduos que, quando chegamos curtia despreocupado a sua cannabis e que, sentando-se ao nosso lado, diante das crianças, passou a discorrer sobre sua “interessante” escalada no mundo do crime, desde quando, aos nove anos de idade, ajudava o pai no tráfico de drogas da região, passando por sua estada na FEBEM aos quinze, e terminando com a última pena cumprida, esta por, após assaltar uma relojoaria no centro de Santos, ter pedido um cigarro a um Policial Civil. Entre os “instrutivos” episódios de vida, o indivíduo pedia dinheiro que nós, temerosos por nossa segurança, não tínhamos como negar.

Ao fim e ao cabo, percebendo que nossa aventura começava a tomar um rumo um pouco arriscado, e tendo em vista que o barco de volta não aparecia, resolvemos acenar para outro, que se dirigia à praia do Góes e que gentilmente atracou no píer, não sem nos cobrar o trajeto até a praia – onde não descemos – e outro trajeto até a ponte dos práticos.

Da visita, além da vergonha de termos submetido nossos familiares a tão desagradável experiência, restou-nos uma triste constatação:

Muito se fala atualmente de uma “crise ética” em nosso país, da falta de ideais e de amor à pátria da juventude. O que não se fala, é que o futuro se constrói aplicando-se no presente os exemplos do passado. Visitamos um ponto turístico recheado de histórias de heroísmo, idealismo, desprendimento e dedicação. Ninguém ali se dispôs a nos contar esses feitos e nem sequer em prestigiar um local com nada menos do que quatro séculos de existência. Os únicos feitos contados com orgulho, foram os de um criminoso reincidente de vinte e quatro anos.

Não se pode amar o que não se respeita e não se pode respeitar o que não se conhece.

Foto: Mônica Blandy

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Discurso de Posse do Presidente Barack Obama Traduzido.

Eu me coloco aqui hoje humildemente diante da tarefa à nossa frente, grato pela confiança com que vocês me honraram, ciente dos sacrifícios realizados pelos nossos ancestrais. Eu agradeço ao presidente Bush pelo seu serviço à nossa nação, bem como pela generosidade e cooperação que ele mostrou ao longo da transição.

Quarenta e quatro americanos agora já fizeram o juramento presidencial. As palavras foram ditas durante crescentes marés de prosperidade e as águas calmas da paz. Mas, de tempos em tempos, o juramento é realizado entre nuvens que se formam e tempestades violentas. Nesses momentos, a América seguiu à frente não somente pela habilidade ou visão dos que estavam no alto escalão, mas porque Nós o Povo permanecemos confiantes nos ideais dos nossos ancestrais e fiéis aos nossos documentos fundadores.

Assim tem sido. Assim deve ser com essa geração de americanos.

Que nós estamos em meio a uma crise é agora bem sabido. Nossa nação está em guerra, contra uma rede de longo alcance de violência e ódio. Nossa economia está bastante enfraquecida, em consequência da ganância e irresponsabilidade por parte de alguns, mas também por nosso fracasso coletivo em fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era. Casas foram perdidas; empregos cortados; negócios fechados. Nosso sistema de saúde está muito dispendioso; nossas escolas fracassam com muitos; e cada dia traz novas evidências de que as formas como usamos a energia fortalecem nossos adversários e ameaçam nosso planeta.

Esses são os indicadores da crise, assunto de dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profundo, é o enfraquecimento da confiança ao longo de nossa terra - um medo repetido de que o declínio da América é inevitável, e que a próxima geração deve diminuir suas perspectivas.

Hoje eu digo a vocês que os desafios que nós enfrentamos são reais. Eles são sérios e são muitos. Eles não serão vencidos facilmente ou em um período curto de tempo. Mas saiba disso, América: eles serão vencidos.

Nesse dia, nos reunimos porque nós escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de propósito em vez do conflito e da discórdia.

Nesse dia, nós viemos para proclamar o fim às queixas mesquinhas e falsas promessas, às recriminações e aos dogmas desgastados, que por muito tempo já têm enfraquecido nossa política.

Nós continuamos uma nação jovem, mas de acordo com as palavras da Escritura, chegou a hora de se deixar de lado as infantilidades. Chegou a hora para reafirmar nosso espírito tolerante; para escolher nossa melhor história; para prosseguir com esse precioso dom, essa nobre ideia, passada de geração a geração: a promessa dada por Deus de que todos somos iguais, todos somos livres e todos merecem uma chance de buscar sua completa medida de felicidade.

Ao reafirmar a grandiosidade de nossa nação, nós entendemos que a grandeza nunca é dada. Ela deve ser conquistada. Nossa jornada nunca foi de atalhos ou de aceitar menos. Não foi a trilha dos inseguros - daqueles que preferem o descanso ao trabalho, buscam apenas os prazeres das riquezas e da fama. Em vez disso, (nossa jornada) tem sido uma de tomadores de risco, atuantes, fazedores das coisas - alguns celebrados, mas muitos outros homens e mulheres obscuros em seu trabalho - que nos levaram pela longa e espinhosa rota rumo à prosperidade e à liberdade.

Para nós, eles empacotaram suas poucas posses e viajaram pelos oceanos em busca de uma nova vida.

Para nós, eles trabalharam duro em fábricas exploradoras e seguiram rumo a Oeste; suportaram o açoite do chicote e lavraram a terra dura.

Para nós, eles lutaram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg; Normandy e Khe Sahn.

Ao longo do tempo, esses homens e mulheres lutaram e se sacrificaram e trabalharam até suas mãos ficarem em carne viva, para que pudéssemos ter uma vida melhor. Eles viram a América maior do que a soma de suas ambições individuais; maior que todas as diferenças de nascimento ou riqueza ou facção.

Essa é a jornada que nós continuamos hoje. Nós permanecemos a mais próspera e poderosa nação da Terra. Nossos trabalhadores não são menos produtivos do que quando essa crise começou. Nossas mentes não têm menos imaginação, nossas mercadorias e serviços não são menos necessários do que eram na semana passada, no mês passado ou no ano passado. Nossa capacidade permanece a mesma. Mas nossa hora de proteger interesses estreitos e adiar decisões desagradáveis - esse tempo certamente passou. Começando hoje, nós precisamos nos levantar e começar de novo o trabalho de reconstruir a América.

Para todos os lugares que olhemos, existe trabalho a ser feito. A situação da nossa economia pede ação, ágil e rápida, e nós agiremos - não apenas para criar novos empregos, mas para lançar a fundação para o crescimento. Nós construiremos as estradas e pontes, as instalações elétricas e linhas digitais que alimentam nosso comércio e nos mantém juntos. Nós levaremos a ciência a seu lugar de merecimento e controlaremos as maravilhas da tecnologia para aumentar a qualidade do sistema de saúde e reduzir seu custo.

Nós usaremos o Sol e os ventos e o solo para abastecer nossos carros e movimentar nossas fábricas. Nós transformaremos nossas escolas, faculdades e universidades para suprir as demandas de uma nova era. Tudo isso nós podemos fazer. E tudo isso nós faremos.

Agora, existem alguns que questionam a escala das nossas ambições - que sugerem que nosso sistema não pode aguentar planos tão grandiosos. Eles têm memória curta. Porque eles se esqueceram de tudo o que nosso país fez; o que homens e mulheres livres podem conseguir quando a imaginação se junta para objetivos comuns e a necessidade para a coragem.

O que os cínicos não entendem é que o chão que eles pisam não é mais o mesmo - que as disputas políticas que nos envolveram por muito tempo não existem mais. A questão que perguntamos hoje não é se nosso governo é muito grande ou muito pequeno, mas se ele funciona - se ele ajuda as famílias a encontrarem empregos que pagam um salário decente, que tipo de seguridade eles dão, uma aposentadoria que seja digna. Onde a resposta é sim, nós queremos ir em frente. Onde a resposta é não, os programas acabarão. E aqueles de nós que manejam os dólares públicos terão que prestar contas - para gastar de maneira sábia, reformar maus hábitos, e fazer nossos negócios à luz do dia - porque apenas assim nós podemos restaurar a confiança vital entre o povo e o governo.

Também não á a questão que se apresenta a nós se o mercado é uma força para o bem ou para o mal. Seu poder de gerar riquezas e expandir a liberdade é ilimitado, mas esta crise nos fez lembrar que sem vigilância, o mercado pode sair do controle - e uma nação não pode prosperar por muito tempo quando favorece apenas os mais ricos. O sucesso da nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho do nosso Produto Interno Bruto (PIB), mas do poder da nossa prosperidade; na nossa habilidade de estendê-la a cada um, não por caridade, mas porque esse é o caminho mais seguro para o bem comum.

Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos a falsa escolha entre nossa segurança e nossos ideais. Os fundadores do país, que enfrentaram perigos que sequer imaginamos, redigiram uma carta para assegurar o primado da lei e dos direitos do homem, uma carta expandida pelo sangue de gerações. Esses ideais ainda iluminam o mundo, e nós não vamos abandoná-los por conveniência. E, então, para todos os povos e governos que estão assistindo hoje, das grandes capitais ao pequeno vilarejo onde meu pai nasceu: Saibam que a América é amiga de cada nação e de cada homem, mulher ou criança que procure um futuro de paz e dignidade, e que nós estamos prontos para liderar uma vez mais.

Lembrem-se que gerações anteriores enfrentaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com alianças robustas e convicções duradouras. Eles entenderam que nosso poder sozinho não pode nos proteger, nem nos dá o direito de fazer o que quisermos. Em vez disso, eles entenderam que nosso poder cresce com seu uso prudente; nossa segurança emana da Justiça de nossa causa, da força de nosso exemplo, da têmpera das qualidades de humildade e moderação.

Nós somos os guardiães desse legado. Guiados por esses princípios uma vez mais, podemos enfrentar novas ameaças que exigem um esforço maior - maior cooperação e compreensão entre as nações. Começaremos por sair do Iraque com responsabilidade e por criar um esforço de paz no Afeganistão. Com velhos amigos e antigos adversários vamos trabalhar incansavelmente para diminuir a ameaça nuclear, e reduzir o espectro do aquecimento global. Não vamos pedir desculpas por nosso modo de vida, nem vamos vacilar em sua defesa, e, para aqueles que procurarem avançar em seus objetivos produzindo terror e matando inocentes, diremos a eles que nosso espírito é mais forte e não pode ser quebrado; eles não poderão prevalecer e nós os derrotaremos.

Sabemos que nossa herança multicultural é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus - e ateus. Somos moldados por cada língua e cultura, de cada parte desta Terra; e por causa disso provamos o sabor mais amargo da guerra civil e da segregação e emergimos desse capítulo mais fortes e mais unidos; não podemos senão acreditar que os velhos ódios passarão um dia; que as linhas das tribos vão se dissolver rapidamente; que o mundo ficará menor, nossa humanidade comum deve revelar-se; e que a América vai desempenhar o seu papel em uma nova era de paz.

Para o mundo muçulmano, buscamos um novo caminho a seguir, baseado em interesse e respeito mútuo. Para aqueles líderes pelo mundo que buscam semear o conflito, ou culpam o Ocidente pelos males de suas sociedades: Saibam que seus povos irão julgá-los a partir do que vocês podem construir, e não destruir. Para aqueles que se agarram ao poder por meio da fraude e da corrupção, saibam que estão no lado errado da História; mas nós estenderemos a mão se vocês estiverem dispostos a cooperar.

Às pessoas das nações pobres, nós queremos trabalhar a seu lado para fazer suas fazendas florescerem e deixar os cursos de água limpa fluírem; para nutrir corpos famintos e alimentar mentes ávidas. E para aquelas nações como a nossa, que vivem em relativa riqueza, queremos dizer que não podemos mais suportar a indiferença quanto ao sofrimento daqueles que sofrem fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem nos importar com as consequências. Nós devemos acompanhar as mudanças do mundo.

À medida que entendemos o caminho que se desdobra diante de nós, recordamos com humilde gratidão aqueles bravos americanos que, a esta mesma hora, patrulham longínquos desertos e montanhas distantes. Eles têm algo a nos dizer hoje, como aqueles heróis caídos que jazem em Arlington murmuram através dos tempos. Nós os honramos não apenas porque eles são os guardiães de nossa liberdade, mas porque eles representam o espírito de servir ao país; a disposição de encontrar um significado maior que si mesmos. E ainda, neste momento - um momento que vai definir uma geração - é precisamente esse espírito que todos nós devemos viver.

Porque, por mais que o governo possa fazer e precise fazer, em última instância é da fé e da determinação do povo americano que esta nação depende. É a bondade de receber um estranho quando os diques se rompem, é o desprendimento de trabalhadores que preferem reduzir suas horas a ver um companheiro perder o emprego o que nos auxilia em nossas horas mais sombrias. É a coragem do bombeiro de subir uma escada cheia de fumaça, mas também a disposição de pais de criar uma criança o que, no fim das contas, decide o nosso destino.

Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com os quais nós os enfrentamos podem ser novos. Mas aqueles valores dos quais nosso sucesso depende - trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo - essas coisas são antigas. Essas coisas são verdadeiras. Elas têm sido a força quieta do progresso ao longo de nossa história. O que se exige, então, é uma volta a essas verdades. O que se exige de nós agora é uma nova era de responsabilidade - um reconhecimento, por parte de todo americano, de que nós temos deveres para conosco, nossa nação e o mundo; deveres que nós não aceitamos a contragosto, mas com alegria, firmes no conhecimento de que não há nada tão satisfatório para o espírito, tão definidor de nosso caráter, do que dar tudo o que podemos numa tarefa difícil.

Este é o preço e a promessa da cidadania.

Esta é a fonte de nossa confiança - o conhecimento de que Deus nos convoca a dar forma a um destino incerto.

Este é o significado de nossa liberdade e de nosso credo - por que homens e mulheres e crianças de toda raça e de toda fé podem se unir numa celebração neste magnífico Mall, e por que um homem cujo pai, menos de 60 anos atrás, poderia não ser servido num restaurante local, agora pode estar diante de vocês para fazer um juramento sagrado.

Por isso, vamos marcar esse dia com a lembrança de quem somos e quão longe viajamos. No ano do nascimento da América, no mais frio dos meses, um pequeno grupo de patriotas se encolhia em torno de fogueiras que se apagavam, às margens de um rio gelado. A capital estava abandonada. O inimigo estava avançando. A neve estava manchada de sangue. Num momento em que nossa revolução estava em dúvida, o pai de nossa nação ordenou que essas palavras fossem lidas para o povo:

"Que seja dito ao mundo futuro que, na profundidade do inverno, quando nada além da esperança e da virtude poderia sobreviver, a cidade e o país, alarmados diante de um perigo comum, saiu para enfrentá-lo."

América. Em face de nossos perigos comuns, neste inverno de nossas dificuldades, vamos lembrar essas palavras eternas. Com esperança e virtude, vamos enfrentar uma vez mais as correntes geladas e resistir quaisquer tempestades que possam vir. Que seja dito pelos filhos de nossos filhos que, quando fomos testados, nós nos recusamos a deixar esta jornada terminar, que nós não viramos as costas, que nós não vacilamos; e, com os olhos fixos no horizonte e a graça de Deus sobre nós, levamos adiante o grande dom da liberdade e o entregamos com segurança paras as gerações futuras.